Resistência no mundo |por Andréa Rivero, Ângela Scalabrin Coutinho e Rosa Batista | Homenagem a Ana Beatriz Cerisara

Por Andréa Rivero, Ângela Scalabrin Coutinho e Rosa Batista (Nupein/UFSC)

Tarde do mês de abril. Entro na sala das crianças de 3 e 4 anos de uma Creche Pública. As crianças estão alvoraçadas: vão receber uma visita especial. Quem será? A pergunta está estampada em todos os rostos... Até que batem a porta e, para surpresa geral, entra nada mais e nada mesmo do que o “Coelhinho da Páscoa” com uma cesta cheia de balas para distribuir entre as crianças! O agito é geral. A esta altura o “Coelho” meio atordoado diz para as crianças: “Olha, eu sou o Coelhinho da Páscoa e trouxe balas pra vocês. Quem falou par eu vir encontrar vocês foi o Papai do Céu! Sabem por que? Porque ele queria que eu dissesse que ama muito vocês, viram?”

Enquanto uns olham imobilizados, outros não conseguem conter sua curiosidade e fulminam o Coelho com comentários e perguntas: O Papai Noel também trouxe presentes pra nós, sabias? Tu vieste do céu? Então tu moras junto com o Papai Noel? Onde é que vocês moram?

Enquanto vais sendo distribuído um punhado de balas para cada criança as perguntas continuam: Então, se foi o Papai do Céu que mandou estes presentes, tu moras junto com ele? E os anjinhos vão vir nos visitar também?

Diante desse discurso meio incompreensível para o Coelho, nenhuma resposta foi ouvida. Após a saída deste da sala, as crianças comentam enquanto saboreiam as balas: É, eu disse que ele morava no céu? E o Papai Noel mora junto com ele, né? É, eu vi ele voando lá fora! Mas, e o Papai do Céu?

O registro que abre o artigo escrito por Ana Beatriz Cerisara em 1998[1] e publicado no livro “O brincar e suas teorias” nos revela do seu lugar no encontro com professoras e crianças nos contextos de educação infantil. Esse lugar, de uma escuta interessada pelo o que ocorre nesses contextos foi fundamental para que o Curso de Pedagogia estreitasse suas relações com as instituições de Educação Infantil e que a relação Universidade e Rede Municipal de Ensino tivesse contornos muito próprios, marcados pela dialogicidade.

A grande contribuição das suas pesquisas sobre a constituição da docência na Educação Infantil se espraiou para a compreensão das relações que tecem os contextos educativos, desde as políticas até a consideração das crianças na constituição das relações educativo-pedagógicas, isso em um período que a escuta das crianças ainda não era pauta nos cursos de formação, na produção acadêmica, muito menos na elaboração de políticas. Essa perspectiva, marca a então habilitação em Educação Infantil do Curso de Pedagogia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e traz orientações para o desenvolvimento do estágio supervisionado e para as pesquisas desenvolvidas no Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Educação da Pequena Infância (Nupein/UFSC), o que permite que a relação entre graduação e pós-graduação se constitua de modo intrínseco, adensando as discussões e um projeto de formação de professoras e professores para a Educação Infantil que considera a constituição da área a partir dos seus referenciais históricos, políticos, sociais, pedagógicos, tomando o olhar para as crianças como elemento imprescindível.

Conforme rememora Ana Beatriz em 2004[2] percebeu-se: “[...] que ter as crianças como parceiras no processo de investigação poderia ampliar o nosso conhecimento sobre elas e sobre a forma como vivem as suas infâncias em contextos de educação coletiva, sendo isso essencial para pensarmos a finalidade das instituições de educação infantil”. Ou seja, partia-se da compreensão de que conhecer as crianças em seus contextos de vida e compreender a pluralidade de infâncias precisaria constituir-se em ponto de partida para elaboração de indicadores para a prática pedagógica, defesa fulcral da Pedagogia da Infância, para a qual muito contribuiu a produção de Ana Beatriz e do Nupein, amplamente divulgada no GT07 – Educação da Criança de 0 a 6 anos, da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd).

Neste cenário, conceber as crianças como fonte privilegiada de informações, sem com isso negar a existência de patamares diferenciados entre crianças e adultos, tornou-se, para as pesquisadoras e pesquisadores do Nupein não apenas interessante, como necessário (CERISARA, 2004). Assim, nos últimos 20 anos de história do núcleo a convicção sobre a necessidade de realizar pesquisas com crianças fortaleceu-se, tornando-se uma das bases em torno da qual estudos diversos são produzidos. Isto se torna evidente ao verificarmos que vinculadas ao Nupein foram defendidas pesquisas, cuja marca comum é a inclusão da perspectiva das crianças, com vistas à consolidação de um espaço de reflexão e produção de conhecimento, sobretudo no que tange à educação infantil. Dentre estas pesquisas 22 são dissertações, produzidas entre os anos de 2001 a 2015 e nove são teses produzidas entre os anos de 2009 e 2015.

Nesse percurso ao analisarmos o entrelaçamento da pesquisa com as instituições de Educação Infantil identificamos que essa relação permitiu que as pesquisas desenvolvidas e orientadas por Anabea, como era carinhosamente chamada, partissem da consideração dos sujeitos e dos contextos e que suas contribuições retornassem a eles, seja por meio do desenvolvimento de percursos investigativos implicados eticamente com a partilha dos conhecimentos produzidos, já ao longo do processo de pesquisa, assim como por meio de devolutiva às instituições após a conclusão dos estudos, dos Ciclos de Debates organizados pelo Nupein e abertos às redes municipais de ensino, nos processos de formação inicial e continuada.

Difícil escolher um termo que sintetize esse movimento sinérgico, mas a ideia de compartilhamento talvez se aproxime do que Anabea ajudou o grupo e a área da Educação Infantil a construir, ensinando que a universidade não se sustenta sem uma relação direta com a sociedade e que as crianças e as professoras, interlocutoras privilegiadas em nosso trabalho, não são meras coadjuvantes, mas atores sociais que têm voz e vez e que, por isso, têm o direito de participar ativamente das esferas decisórias das questões que lhe dizem respeito.

Esse princípio ético também permeava a relação com os pares da área da Educação Infantil e com as orientandas, muitas de nós mesmo ao finalizar as pesquisas de mestrado e doutorado permaneceram no grupo, aprendendo sobre a pesquisa, sobre a docência e sobre estar no mundo em uma relação empática e de alteridade com o outro. Quanto às colegas de outras universidades, do Movimento Interfóruns de Educação do Brasil (Mieib), da ANPEd, fica um legado que nos convoca a continuar produzindo conhecimento relevante sobre a área e com compromisso social com os sujeitos que constituem o cotidiano da Educação Infantil.

Inspiradas em Anabea, com ela e para ela seguiremos nessa trama que, como ela fez na academia e nos seus bordados, revela os desafios e as utopias que marcam a nossa existência e resistência no mundo.

Por: Andréa Rivero, Ângela Scalabrin Coutinho e Rosa Batista

Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Educação da Pequena Infância (Nupein/UFSC)

[1] CERISARA, Ana Beatriz. De como Papai do Céu, o Coelhinho da Páscoa, os anjos e Papai Noel foram viver juntos no céu. In: KISHIMOTO, Tizuko Morchida. O brincar e suas teorias. São Paulo: Pioneira: 123 -138, 1998.

[2] CERISARA, Ana Beatriz. Em busca do ponto de vista das crianças nas pesquisas educacionais: primeiras aproximações. In: SARMENTO, Manuel J.; CERISARA, Ana Beatriz (Orgs.). Crianças e Miúdos: perspectivas sociopedagógicas da infância e educação. Edições ASA: Porto/Portugal, 2004, pp. 35-54.

 

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