Nota de pesar pelo falecimento de Regina Leite Garcia

A Diretoria da ANPEd lamenta o falecimento da professora e pesquisadora Regina Leite Garcia no dia de hoje, na cidade do Rio de Janeiro, aos 86 anos de idade. Regina Leite teve intensa e qualificada atuação em nossa Associação, onde atuou nos GTs de Currículo e Educação Popular. Regina Leite Garcia iniciou sua vida profissional como professora primária e atuou durante 15 anos. Posteriormente tornou-se orientadora educacional e presidiu a Federação Nacional de Orientadores Educacionais. Foi pesquisadora do CNPq entre 1985 e 2014. Realizou pós-doutorado no Institute of Education, London University em 1993 e na University of Wisconsin - Madison em 1994. Publicou livros e artigos no Brasil e no exterior e tornou-se elo importante entre o Brasil e diferentes intelectuais da teoria crítica dos currículos.

Concluiu doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1986, defendendo Tese sobre a Alfabetização dos alunos das classes populares. Entrou na Universidade Federal Fluminense (UFF) por concurso no ano de 1985 e atuou nos Cursos de graduação em Pedagogia de Niterói e no projeto experimental do Curso de Pedagogia na cidade de Angra dos Reis que ajudou a conceber e impulsionar. Em 1994 passou à condição de Titular em Alfabetização da UFF com a aprovação da tese “Cartas Londrinas e de outros lugares sobre o lugar da educação”; a tese foi publicada em 1995 com Prefácio de Paulo Freire, intelectual com o qual compartilhou princípios político-epistemológicos e sonhos de emancipação das classes populares. No ano de 2011 recebeu da UFF o título de Professora Emérita.

Regina Leite teve intensa participação no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFF. Coordenou o GRUPALFA, dedicando-se à pesquisa e formação de professores em estreito diálogo com professoras alfabetizadoras de diferentes redes de ensino e movimentos sociais urbanos e rurais.

Regina Leite Garcia deixa-nos o legado do compromisso com a produção qualificada de conhecimentos na área da Educação em sintonia com a sua convicção de que os conteúdos da vida são, em última instância, os verdadeiros conteúdos alfabetizadores.

 

Os membros do GT 12 Currículo manifestam solidariedade diante do falecimento de uma de suas fundadoras a Professora Regina Leite Garcia, e, com profundo pesar, divulgam nota escrita por Inês Barbosa de Oliveira, Presidenta da ABdC/Associação Brasileira de Currículo, em sua homenagem. 
 

"Comecei minha carreira profissional na Universidade de modo privilegiado: ao lado de Nilda Alves e Regina Leite Garcia, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em 1995. Data desse período muito daquilo que aprendi sobre docência e vida na Universidade, sobretudo nos anos em que tive o privilégio de compartilhar a experiência do curso de Pedagogia que a UFF mantinha em parceria com a Prefeitura Municipal de Angra dos Reis, capitaneado pelas duas. Da efervescência política e epistemológica daqueles tempos trago amizades (como a que tinha com Regina) e muitas aprendizagens, também com ela. Regina ensinava e ensinou muito a muitxs, às vezes sem nem perceber.

Dos jantares pós-aula em que as conversas informais transpiravam sabedoria, às reuniões das segundas-feiras, quando aprendíamos uns com os outros, Regina se destacava, por diferentes razões, nem sempre agradáveis, mas sempre úteis e relevantes. Conviver com ela foi um desafio fascinante! Regina foi sempre uma “leoa” (embora não leonina) na defesa de suas ideias e propostas, contra e por quem quer que seja. Não se intimidava jamais, e talvez por isso, intimidava muitos. Era assim na defesa da escola pública de qualidade, capaz de produzir a alfabetização das crianças das classes populares, pelas quais lutou e militou!

Naquela época o cotidiano escolar como espaçotempo de pesquisa era muito mais um lócus objetificado pela produção de pesquisas “sobre” o cotidiano em que se destacavam críticas intermináveis àquilo que ali se fazia, com especial destaque a tudo o que alunos, professores e comunidade escolar deveriam saber e não sabiam, deveriam fazer e não faziam, deveriam ser e não eram. Compartilhava com Regina a convicção de que, antes e mais do que criticá-los, precisávamos compreender os cotidianos escolares para contribuir com sua melhoria, acreditando nos seus saberes e suas possibilidades. Acreditava, com e como Regina, que as ideias de que “as professoras não sabem”, “os pais não entendem a importância da escola” ou ainda “os alunos não querem nada” eram injustas e infundadas. Ouvir Regina, que tanto representava e sabia, defender as professoras e os cotidianos era música para meus ouvidos.

E foi assim que me aproximei do campo do Cotidiano, não sem dificuldades e ruídos que hoje percebo como desafios que muito contribuíram para minha trajetória acadêmica, de ensino e pesquisa, de reflexões e leituras. Minha e de muitos. No dia em que Regina nos deixa, o que me vem à cabeça para dizer é: muito obrigada, Regina!"

Inês Barbosa de Oliveira. 

 

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