GT 07 | Texto em repúdio pela execução do garoto Jônatas em Pernambuco

PRECISAMOS FALAR SOBRE JÔNATAS: UMA CRIANÇA EXECUTADA

Entre 1954 e 1955 João Cabral de Mello Neto escrevia a obra: Morte e Vida Severina sobre a dura e sofrida trajetória de uma família retirante em Pernambuco. Ali a infância morria de sede e fome. Passados 67 anos, novamente em Pernambuco, precisamente em Barreiros na Zona da Mata Sul, uma criança de 9 anos é deliberadamente assassinada. O que temos aqui é a permanência da morte da infância, ainda mais banalizada e brutalizada. Morte esta que, nos últimos anos conjuga--se mais diretamente a violência doméstica, urbana e de extermínio de populações e minorias. Segundo dados do UNICEF, 35.000 crianças foram assassinadas no Brasil nos últimos 5 anos, sendo que o assassinato de crianças de até 9 anos cresceu 27% neste período. Acompanhamos estes assassinatos, conhecemos alguns nomes e rostos daqueles a quem lhes foi tirado o direito de viver: Agatha, João, Pedro, Henry, Jenifer, kavan, Kauã, Kauê, Ana Carolina, Kethllen e tantos outros, cuja curta trajetória habita o silêncio e as sombras da historia. Agora falamos de Jônatas Oliveira, criança negra, de 9 anos, filha de um casal de agricultores familiares, pai liderança rural, moradora de uma comunidade em situação de conflito agrário. Jônatas não morreu de “bala perdida” (que sabemos serem encontradas, via de regra, no corpo de crianças negras e pobres das periferias urbanas). Jônatas também não morreu em decorrência da violência doméstica, como em tantos outros casos. Sua morte não foi nem acidental, nem incidental. Jônatas foi deliberadamente executado, sua morte foi escolhida para matar simbolicamente os pais, retirando--os da luta pela terra e por uma vida digna.

Uma sociedade que torna possível que uma criança seja executada para fazer sofrer e calar os pais é uma sociedade que perdeu sua humanidade. Um crime deste só é possível porque, antes, nos calamos diante de 35.000 mortes. Ao suportarmos o insuportável, naturalizamos a barbárie. Impossível não constatarmos que a grande maioria destas 35.000 crianças são pretas e pobres e que, a cumplicidade do nosso silêncio relaciona--se ao menor valor que atribuímos a estas vidas, ainda que crianças, como diz Judith Butler, vidas que não são choradas, cujo luto não se faz. Não há como não se remeter aos escritos do Primo Levi em seu livro É isto um homem? quando de alguma maneira perguntava de como é possível continuar sendo homem e viver tranquilo com a comida quente e rostos amigos depois de tanta barbárie emergida? Ou seja, como é possível prosseguirmos sem urrar de que o intolerável foi ultrapassado. E daí? se alastrou pela atmosfera social em contraposição à tolerância, à empatia. Uma criança foi deliberadamente assassinada. Se não fizermos nada, a infância nos cobrará caro! Fonte:

Anete Abramowicz e Maria Cristina Gouvea Professoras da USP e da UFMG

Indicação de leitura: reportagem da revista Carta Capital

 

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