Colaboração Boletim ANPEd | A Palavra por Paulo Freire Enquanto Expressão de Cultura

Texto produzido por Elaine Cristina Vieira Ferraz (UNICAMP) como colaboração para o Boletim ANPEd.
 

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Paulo Reglus Neves Freire, ser humano, educador amoroso, nasceu no dia 19 de setembro de 1921, em Recife, Pernambuco, na época uma das regiões mais pobres do país, onde desde muito cedo pôde experimentar as dificuldades de sobrevivência das classes populares, por nascer e habitar nelas.

Numa trajetória que perpassa o Direito e o traz para a Educação, em 1963 realiza a Experiência de Alfabetização de Angicos/RN, que fundamenta a criaçãodas bases do Programa Nacional de Alfabetização, no governo João Goulart. Nesta experiência percebe que palavras geradoras, significativas, favoreciam o saber. Saberes da boniteza humana, que levavam à significância do aprender ensinando e do ensinar aprendendo. A vivência fazedora de cultura, o respeito a cada um, que na consciência de todos, se engajava na tolerância ao diferente. Numa outra realidade sociocultural, tais palavras geradoras nada significam na leitura de mundo do educando, que se faz necessária antes da leitura da palavra. Faz-se entender aqui que uma cartilha nacional de alfabetização não estabelece qualquer vínculo de significância, apenas sugere a memorização do processo de leitura e escrita, sem a apropriação dos saberes.Afinal, citando Cândido, o livro pode ser um agente revolucionário, por isso a necessidade de aprisioná-lo com signos sem significados.Esta proposta alfabetizadora de Freire deflagrava o emancipar através da leitura do mundo, onde cada um é sujeito e não objeto social.

A proposta ideológico-social de que o mundo posto não deve nos levar à adaptação, mas a sua transformação, levou Freire a ser um dos primeiros brasileiros a ser exilado, sendo sua propostaincondizente com a Ditadura Militar que se instaurava no Brasil em 1964. Depois de ter estado na Bolívia, viveu no Chile, onde escreveu a sua principal obra: Pedagogia do oprimido.

Pranchas de Alfabetização - Método Paulo Freire
Diafilme do Programa Nacional de Alfabetização para o Estado do Rio de Janeiro, produzido por Francisco Brennand, a partir do método Paulo Freire de Alfabetização. Fonte: http://acervo.paulofreire.org:8080/xmlui/handle/7891/656

 

Depois de 16 anos de exílio, em 1980, retornou ao Brasil para “reaprender” seu país, como ele mesmo referiu-se ao seu retorno aos solos nacionais.O seu regresso apresenta um Paulo Freire que não mais acreditava, numa visão cristã humanista, na organização social pacífica dos diferentes; o fel do exílio amadureceu e fertilizou, com o adubo marxista, a ideia de que a vivência pacífica das diferentes classes sociais jamais propiciaria a inclusão dos menos afortunados sócio-econômico-culturais, apenas a opressão destes. E que a educação bancária, como chamava, servia justamente como mecanismo para perpetuação da dominação. O Paulo que volta ao Brasil percebe que, de forma insofismável, a opressão material gerava uma ignorância cultural.

Ele ratifica a história contada pelos debaixo, numa alusão a Thompson, um defensor daconcepção de que a história deve ser contada não somente levando em consideração os “grandes fatos” da história oficial e seus heróis, mas, sobretudo, pela observação dos fatos ocorridos com pessoas que fazem parte da massa esquecida, entre eles os operários, registrando experiências e visões negligenciadas pela historiografia tradicional, contada, divulgada e naturalizada pela elite. Para Freire, cada um de nós é um fazedor de cultura, em cada gesto, atitude e manifestação.

 

Sua luta e suas obras contra uma educação bancária e alienadora permanecem vivas e pulsantes.

 

Tem em 1986, reconhecimento por seu empenho e trabalho, recebendo o Prêmio Unesco da Educação para a Paz. Sua luta e suas obras contra uma educação bancária e alienadora permanecem vivas e pulsantes. Em 13 de abril de 2012, é sancionada a lei nº 12.612, que declara o educador Paulo Freire Patrono da Educação Brasileira. A autenticidade de suas origens desfavorecidas, a amorosidade de sua formação humanista cristã e sua visão revolucionária da força da palavra fez de Paulo Freire um ícone peculiar, que conseguiu ser conservador para os progressistas e revolucionário para os reacionários.

A cultura de um povo, para ser efetivamente representativa deste povo, não pode ser fragmentada, deve ser escrita por todos. Isso permeia o processo de construção da História de uma nação, com atitudes engajadas por manifestações populares. Este engajamento, perpassado pelo empoderamento da nacionalidade, construiria, para Freire, o Brasil Nação. Estas manifestações populares poderiam ter sua reflexão e sua prática através do aprender e ensinar no espaço da Educação; da significação do mundo pela palavra e da significação da palavra no mundo.Por isso é preciso que esteja em vigência uma educação progressista, que não tolha a ação, sua reflexão e a inciativa de uma nova ação refletida. O educando precisa se expressar; seu silêncio, sua passividade frente à opressão precisa ser instigada pela indignação. As perguntas na vida devem criar e recriar respostas.Na medida em que cada um de nós toma decisões e tem ações, mesmo que sejam de aceitação e silêncio, estas ações não são neutras. A Educação,em casa e na escola, seja ela pautada na conformidade, deformidade, resignação ou atuação, nunca tem uma propositura neutra.

Esta neutralidade não se efetiva, já que as ações pautadas na escolha ou na falta dela deflagram para Freire os níveis de consciência pelos quais o ser humano consegue vislumbrar, perceber, inteligir, decidir, escolher, valorar e eticizar o mundo. Quando o oprimido exprime a razão dos problemas através da lente da ideologia dominante, explicando-os com motivação fora da realidade concreta, fatalismo do destino, desígnios divinos, naturalização da inferioridade, esta ação infere adaptação ao mundo posto, através de um caráter mágico-defensivo ou mágico-terapêutico. É a ignorância como bálsamo para diminuir a dor e belezura da existência humana, pobre e animalizada. Num processo de tomada de consciência, a lente da realidade de classes populares reprimidas pelas classes dominantes passa a ser a motivação para um processo não mais de adaptação, mas de proposituras de transformação, trazendo processos violentos de repressão da classe dominante na manutenção do poder historicamente instaurado. Esta lente pode ser construída pela educação crítica e emancipadora, que é tolhida com a proposta da escola bancária, imposta pela minoria detentora do poder. Por isso seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica. Quando ocorre a resignação e se organiza para a práxis da transformação, da revolução, tem-se a consciência transitiva-crítica. Tem-se então o papel sociocultural primorosamente fundamental da Educação que, na visão freiriana, não muda o mundo, mas muda as pessoas que mudam o mundo, pois se ela, a Educação, sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.

Como sujeitos na construção de cultura, somos condicionados ao nosso tempo, contudo não determinados por ele.Por isso a História não se faz de certezas, mas de possibilidade,sendo o futuro problemático, e não inexorável, parafraseando Freire.

 

Elaine Cristina é mestranda na Faculdade de Educação da UNICAMP, é pesquisadora dos grupos GEPEJA e GPPES. Trabalho na Secretaria de Educação de Vinhedo/SP, responsável pela EJA e pela Educação Integral do Município. 

 

 

Referências:

BEISIEGEL, Celso de Rui. Paulo Freire. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010.
FREIRE, Paulo. A sombra desta mangueira. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2013.
FREIRE, Paulo. Conscientização; tradução de Tiago José Risi Leme. São Paulo: Editora Cortez, 2016.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Editora UNESCO, 2000.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2014.
FREIRE, Paulo. Política e Educação: ensaios. São Paulo: Editora Cortez, 1993.
FREIRE, Paulo e, FACUNDEZ, Antonio. Por uma Pedagogia da Pergunta. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1985.
https://www.paulofreire.org/paulo-freire-patrono-da-educacao-brasileira
SPIGOLON, Nima Imaculada. Pedagogia da Convivência: Elza Freire - uma vida que faz educação. Jundiaí: Paco Editorial, 2016.
THOMPSON, Edward. Costumes em comum. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1998

 

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