Bordar resistências |por Adilson de Ângelo (UDESC) | Homenagem a Ana Beatriz Cerisara

por Adilson de Ângelo (UDESC)

“Três de abril de 2010. Estou definitivamente de volta à Ilha de Santa Catarina. Depois de passar um ano nos Ilhéus de São Jorge, regresso a Florianópolis de caniço e samburá, de mala e cuia. Voltar ao ponto de partida nem sempre é tarefa fácil, que se consiga cumprir sozinho.  Por isso, acionei a minha rede amiga e pedi guarida; eu precisava de pouso até ajeitar as coisas. “Não se preocupe, uma de nós te vai buscar ao aeroporto!”, disseram. E lá estava Anabea à minha espera. “Então, guri, voltastes? Seja bem-vindo de volta!”. Abraços e risadas de reencontro. “Quero saber desta tua experiência no sul da Bahia!”. No caminho para casa, ela me dizia: “hoje o grupo de bordados vai estar reunido. Quando chegarmos, vamos encontrar a sala tomada de panos e linhas e mulheres bordando!”. Rimos muito. Dito e feito. Um grupo de mulheres com mãos ágeis e gestos delicados estava ali, ocupando a sala. A agulha sulcando a trama do tecido. A linha lavrando o linho, deixando um rastro de colorida poesia. Já não me recordo o que bordavam. Talvez bordassem a poesia musicada de Cartola, a irreverencia de Leila Diniz, a presença de Antonieta de Barros, a serenata ao luar no Campeche, a beleza divinal de Iemanjá. E eu, que já era fã daquelas bordadeiras, fiquei fã dos seus bordados.”

Revisitando meus escritos diários, encontrei este excerto. Ana Beatriz Cerisara, que marcara a minha trajetória acadêmica através da sua produção sobre as crianças e a sua educação, me marcava agora através da sua arte. Nunca consegui dissociar os seus escritos dos seus bordados. As cenas cotidianas que agora ela retratava estavam repletas de infâncias e crianças. Os seus bordados eram um bom mote para enriquecer as discussões sobre a infância como um tempo de direito de as crianças serem crianças.

Orientando estágio em uma creche pública de Florianópolis, acompanhava um grupo de criança que estava vivendo a experiência de contatar com imagens da ilha. Lembrei-me dos bordados da Anabea que retratava muito bem cenas coloquiais. Com a sua autorização, reproduzimos algumas das imagens dos seus bordados e os apresentamos às crianças. Foi uma festa! Nenhum detalhe passou despercebidos. As crianças organizaram, com a ajuda das professoras, uma exposição no hall de entrada da instituição. Fizeram uma visita guiada para receber os visitantes. “Esses são bordados de uma professora que não dá mais aula... agora ela faz bordados... ela fez as crianças brincando em Santo Antônio de Lisboa... fez as crianças brincado de roda...”, diziam elas.

Diante da exposição de bordados, uma professora, que trabalhava na instituição há muito tempo, disse emocionada: “que forma bonita da Bea voltar à nossa creche!”. “Voltar? Não entendi”, disse eu. A professora explicou: “Durante muito tempo ela foi orientadora de estágio na nossa creche e algumas de suas orientandas de mestranda fizeram a pesquisa aqui com a gente. Ela foi muito importante para a nossa creche”.

Passado algum tempo, eu estava em outra creche da mesma rede orientando estágio. Folheando um exemplar do Currículo da Educação Infantil da Rede Municipal de Ensino de Florianópolis, publicado em 2015, na página 108 deste documento, deparei-me com uma foto daquela exposição que fora organizada com as crianças. Os bordados da Anabea ilustravam o que indicava o documento: “Compor cenários com as crianças, utilizando diferentes imagens, incluindo obras de artistas, pintores, materiais reutilizáveis, mobiliário, elementos naturais, as produções plásticas das crianças, no teto, nas paredes e no chão, que possibilitem a (re)criação, interação e contemplação, ampliando o repertório de sensações.”

Bordado de AnaBea (2006) utlizado na capa do livro "Educação Infantil - Enfoques Em Diálogo", publicação organizada pelas professoras Sônia Kramer e Eloisa Rocha

Assim, penso eu: os bordados na capa da publicação organizada pelas professoras Sônia Kramer e Eloisa Rocha – Educação Infantil - Enfoques Em Diálogo -, na exposição organizada pelas crianças, no cartaz do V Colóquio Diálogos Freirianos “Infâncias e o direito à cidade” – que aconteceu em agosto do ano passado -, vão perpetuando o compromisso de Ana Beatriz Cerisara com a Educação Infantil explicitado na sua produção teórica.

Bordado de AnaBea (2005) utilizada em exposição organizada pelas crianças

Bordado de AnaBea (2007) utilizado como cartaz do V Colóquio Diálogos Freirianos “Infâncias e o direito à cidade”

Em um texto seu, publicado em 1999, quando ela indagava “por onde anda a educação infantil?”, ela nos alertava: “Entendo que a especificidade do atual momento histórico está a exigir um esforço coletivo de todos aqueles que estão direta ou indiretamente envolvidos com a educação infantil em especial e com educação pública em geral, no sentido de tentar compreender a atual conjuntura para que possamos nos instrumentalizar para enfrentar os desafios e dilemas que já estão colocados e os que estão por vir”.

Em tempos de sucessivos golpes, é preciso bordar resistências.

Por: Adilson de Ângelo - professor na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)

 

 

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