Maria Julieta Calazans (1930-2018) | Memória ANPEd

A ANPEd lamenta o falecimento da professora Julieta Calazans, ocorrido no dia 05 de abril (quinta), com enterro realizado na cidade de Natal (RN) na sexta-feira. A Associação se solidariza com familiares e amigos. Calazans teve atuação de suma importância no processo de fundação da ANPEd, integrando as três primeiras diretorias e eleita como presidente no período de 1981 a 1983.

imagem: blog Era uma vez em Areia Branca

No ano em que a ANPEd completa 40 anos, mostra-se de suma importância o reconhecimento de trajetórias como a de Maria Julieta Calazans não só para a entidade, mas para todo o campo da pós-graduação e pesquisa em Educação no país. Em entrevista, veiculada na Revista Brasileira de Educação (RBE) em 2005, a então professora adjunta da UERJ relembrou momentos importantes de sua vivência e atuação na área. O depoimento, concedido a Lucídio Bianchetti (UFSC) e Osmar Fávero (UFF), tem início com as lembranças de Maria Julieta sobre sua cidade natal, Areia Branca, nas proximidades de Mossoró (RN). O perfil da município, com 80% de trabalhadores, e o convívio com operários foi decisivo para seu pensamento e caminhos profissionais. Professora escolar, recebeu ainda jovem influência do movimento Ação Católica e logo cedo atuou no SESI, onde fundou um núcleo assistencial na cidade em 1949, com cerca de 20 anos. A convivência com a difícil realidade dos trabalhadores foi intensa a partir de então, com sua dedicação reconhecida em portas que passaram a se abrir, como uma bolsa para cursar Serviço Social em Natal.

Num período de perseguição e paranoia anticomunista, o envolvimento intenso com a criação de sindicatos rurais e formação de lideranças no Nordeste a colocou numa situação exposta, mesmo que nunca tivesse qualquer atuação partidária nesse sentido. Chamada a depor em algumas situações, deixou o país após o gole de 1964, passando por Peru e Venezuela. Em Caracas trabalhou em um órgão de planejamento do estado, onde fez contatos diversos, entre eles com um perito da Unesco que a apresentou a um pesquisador francês com interesse em questões do nordeste brasileiro. O professor Desroche viria a ser seu orientador nos três anos de estudo na Europa. No começo dos anos 70, ao regressar ao Brasil sentiu o clima de repressão, com iminência de prisão em seu estado natal. No Rio de Janeiro, teve a oportunidade de atuar no IPEA com Classificação Internacional de Trabalhadores da OIT, algo com que tinha tomado conhecimento e experiência na França. Maria Julieta assumiu a coordenação de um amplo trabalho em nível nacional que durou três anos.

O trabalho se dava através de convênio com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), onde foi contratada posteriormente. Esse período coincide com sua maior relação com o corpo acadêmico do Rio de Janeiro, sendo designada para assumir a coordenação de pesquisa no momento de implantação do mestrado em Educação da FGV, a partir do recém-criado IESAE (Instituto de Estudos Avançados em Educação). A ideia era que o instituto se expandisse nacionalmente, visto que não existiam mestrados em educação fora da região sudeste. A partir de convênios com o MEC, foram oferecidos cursos de especialização para o pessoal de secretarias de educação e para professores universitários de todo o Brasil inteiro. Os melhores alunos dessas faculdades também eram incentivados a virem estudar no instituto. Num momento de fartos recursos, professores visitantes, alguns da Europa, eram convidados a ministrar cursos para o Mestrado.

ANPEd

Em meados da década de 1970 estavam sendo criadas associações nacionais de áreas como Economia e Administração. Incitada por colegas, fez estudos e contatos para algo semelhante para a Educação. O dinheiro que tinha em caixa no IESAE, 10.200 cruzeiros, bancou a primeira reunião da ANPEd na FGV em março de 1978, com 17 pessoas presentes, entre coordenadores de PPGEds, professores e representantes da CAPES, CNPq, FINEP e IPEA. A diretoria provisória teve Jacques Veloso como presidente e a própria Maria Julieta como Primeira-Secretária. Num primeiro momento, houve questionamentos por setores específicas da pós-graduação e mesmo desconfiança sobre a ligação com a CAPES. Mas o papel destinado à Associação foi ficando mais claro nos primeiros anos. "[eu] via a ANPEd como algo mais liberto, até porque não é possível você ficar com uma categoria profissional subordinada às instâncias do Estado. Quem virou a mesa foi o [Miguel] Arroyo: 'Se a associação é nossa, é nossa!'. O divisor de água dessa história foi termos assumido não só os programas como sócios, como era a proposta da CAPES, mas também professores e pesquisadores, e mais tarde pós-graduandos", relembra a professora na entrevista veiculada na RBE. Sobre a relação com CAPES, afirma: "Ouvi pessoas dizerem até que éramos pelegos da CAPES. Eu não vejo assim. A CAPES tinha interesse de apoiar a ANPEd porque ela poderia ser um veículo de crescimento da pós-graduação. A ANPEd ganhou um certo interesse por ser esse veículo de crescimento. Por exemplo, na primeira Conferência Brasileira de Educação (I CBE), em 1980, percebemos a primeira demonstração disso. Não teve CAPES para organizar nada. A CBE foi organizada pela ANPEd e por outras associações que vieram conosco: o CEDES, da Unicamp, e a ANDE, de São Paulo. Portanto, não foi uma reunião oficial. Eu acho que isso é um tipo de questão que algumas pessoas tomavam como defesa, mas é bastante pejorativo. A ANPEd nunca foi tutelada pela CAPES. Em nenhum momento."

Um parâmetro essencial para tal independência adquirida pela ANPEd foi seu pilar de pesquisa. "Foi ainda na gestão da primeira diretoria, na primeira mudança do estatuto. Achávamos que nossa associação não era somente de professores que ensinavam, mas também dos que realizavam pesquisa. [...] Chegou-se a pensar, na época, em criar outra associação para pesquisa. Preferimos ampliar a ANPEd, mesmo sabendo que poderia haver reações. Considero a inclusão da pesquisa grande acerto. O [Carlos Roberto] Cury também colaborou bastante para que houvesse essa alteração", recorda.

A qualificação de Calazans, experiência para gerir projetos, captar e articular recursos fez com que sua atuação na IESAE e ANPEd colaborassem decisivamente para expansão da pós-graduação no país, em estados como Amazonas, Santa Catarina e Espírito Santo, para além dos já conceituados mestrados da PUC-Rio, PUC-SP, UFRGS e UFMG. A aposta em trazer alunos de grande potencial para a pós-graduação levava mesmo a apoios pessoais em redes de solidariedade. "[...] muitas dessas pessoas dos estados vieram fazer pós-graduação nos centros mais adiantados, entre eles o IESAE. Havia bolsas de estudo [...] Tínhamos o jeito herdado da Ação Católica, a abertura para ajudar as pessoas. No meu caso, que sou sozinha, vinha toda hora alguém, morava no meu apartamento um ano, ano e meio. A maior oferta de bolsas de estudo era real, mas nem sempre estavam disponíveis no início do curso. Por isso, se queríamos que alguma pessoa viesse fazer o mestrado, mesmo que no primeiro momento não conseguisse bolsa, ajudávamos no que podíamos ajudar. Associávamos as necessidades à disponibilidade pessoal e ao poder que tínhamos para captar recursos." Num momento de crise da FGV, o IESAE foi extinto no começo dos anos 1990 com a perda de verbas federais durante o governo Collor, o que levou a mudanças internas na direção superior e o fim de cinco institutos, incluindo o IESAE.

Questionada na entrevista sobre o porquê dessa guinada de solidariedade na construção da pós-graduação nos anos 70 e 80 para um momento atual de rivalidade entre programas e certa "acomodação", Maria Julieta Calazans pontua a diferença na trajetória pessoal dos pesquisadores, além da disponibilidade de recursos. "As pessoas, para chegar na universidade, tinham malhado no meio do mato, tinham passado pelas entranhas não sei de onde. Eu vivi no Peru com fome, na casa de índio. Quando fui para a Venezuela, fiquei malhando até arrumar um emprego ótimo. [...] Depois fui para a Europa, mas também sem bolsa, pelo menos no início. Eu acho que havia um clima que nos ajudou a ser as pessoas que fomos, com muito mais coragem. Quem se forma hoje em um doutorado sente-se efetivamente um doutor, passa a agir como doutor; não tem as marcas de ter ido à luta, como nós fomos."

Clique aqui e acesse a entrevista completa com Maria Julieta Calazans na RBE.

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