A importância da relação de professores(as) da educação básica com a pesquisa: projetos e experiências

Reportagem: Amanda de Oliveira¹

A formação continuada de professores(as) da educação básica por meio do envolvimento com a pesquisa é uma prática que vem sendo cada vez mais estimulada. O surgimento de novos paradigmas no sistema educacional brasileiro impõe grandes desafios e cobra por mudanças profundas no ensino, principalmente em relação ao trabalho docente. Em âmbito nacional, por exemplo, o programa Observatório da Educação (OBEDUC), fruto de parceria entre a Capes e o Inep, desempenhou um papel fundamental na articulação entre pós-graduação, licenciaturas e escolas da educação básica para o fomento de estudos e pesquisa em educação.

                                                                                                 

Apesar da importância e resultados alcançados pelo programa, o seu último edital lançado foi em 2012 (Edital nº 49/2012), no qual foram selecionados 70 projetos em núcleo local e 20 em núcleo em rede (três instituições de ensino superior distintas), o que tristemente sugere sua interrupção. As experiências de professores(as) que participaram de projetos aprovados pelo OBEDUC, eficaz no estímulo ao desenvolvimento de pesquisas, reforçam ainda mais a necessidade de sua continuidade e de outras iniciativas do gênero.

Rosângela Kittel, professora de Educação Especial da Rede Municipal de Santa Catarina, iniciou sua atuação como pesquisadora em 2012 através do projeto Escolarização de alunos com Deficiência Intelectual: Políticas Públicas, Processos Cognitivos e Avaliação da Aprendizagem, vinculado ao OBEDUC. A pesquisa desenvolvida é configurada por uma rede entre a Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e a Universidade do Vale do Itajaí (Univali), o que oportuniza tomar conhecimento de diferentes realidades e trabalhar de forma integrada.

“Esse movimento de reflexão – ação – reflexão acerca dos conteúdos que compõem a prática docente, no caso a prática pedagógica da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, é em essência o que promove a verdadeira formação docente. Isso estimula uma postura crítico-reflexiva e oferece meios para o desenvolvimento de um pensamento autônomo e uma ação profissional mais consciente. O diálogo com a academia, o entendimento da prática à luz das teorias, é o fantástico", revela a professora. 

O professor Joel Fernando Penna, que trabalha na Rede Estadual e Municipal de Ouro Preto (MG), integra o projeto Desenvolvimento Profissional Docente e Inovação Pedagógica: um estudo exploratório sobre contribuições do PIBID, também vinculado ao OBEDUC. Neste, grupos de pesquisa da Universidade Estadual do Ceará, Universidade Federal de São Paulo e Universidade Federal de Ouro Preto são articulados e proporcionam em conjunto uma ação de intercâmbio e experiência investigativa.

Para Joel, ao mesmo tempo que é desafiador aprofundar o conhecimento de teorias e relacioná-las com o dia-a-dia da escola, o projeto estimula e cobra novas práticas. “Estou tendo oportunidade de ter um conhecimento mais profundo dos estudos teóricos através da leitura de textos de grandes pensadores da educação. O trabalho em equipe com alunos da graduação, professores, mestrandos e doutorandos é uma experiência que me 'obriga' a pensar e redefinir as minhas práticas educacionais na sala de aula”, afirma.

Hamilton Pernick Vieira integra o mesmo projeto pelo núcleo UECE. Nesta investigação já desenvolveu dois artigos científicos e sua dissertação de mestrado em Educação - hoje está no doutorado e trabalha com formação de professores. “Minha experiência em pesquisa na especialização, mestrado, doutorado e grupos de pesquisa mostra que o caminho para mudanças é o diálogo entre todos os segmentos da comunidade educativa e a pesquisa como postura investigativa da prática, para que nela seja recriada a teoria que a orientou. Isso é a práxis.”

Outro projeto em rede fomentado pelo OBEDUC é o Avaliação do Plano de Ações Articuladas (PAR): um estudo em municípios dos Estados do Rio Grande do Norte, Pará e Minas Gerais no período de 2007 a 2011, que objetiva analisar a implantação do PAR enquanto uma política pública no contexto das atuais políticas educacionais. O professor Marcos Carneiro, que integra o núcleo UFRN do projeto, analisa que os contextos diversos que a pesquisa engloba proporciona uma compreensão mais consistente da política educacional brasileira. Além disso, para ele o trabalho foi extremamente prazeroso. “A cada etapa da pesquisa, um novo aprendizado, novas lições e, consequentemente, uma ascensão na minha prática docente.”

A professora Ana Silvia Ferreira, que integra o núcleo UFPA do projeto, afirma que “a pesquisa foi o fio condutor para que diariamente em meu lócus de trabalho eu pudesse ver os problemas como algo a ser pesquisado. A dimensão ‘formação de professores’, parte que integro na pesquisa, me possibilitou diversos estudos sobre o tema e compreender os problemas do profissional docente”.

                                                                    

Dificuldades

De forma mais ampla, no entanto, é possível perceber que a problemática da formação iniciada e continuada do(a) professor(a) da educação básica é a de que o ensino marginaliza a pesquisa, ou seja, não a vê como elemento necessário para o desenvolvimento de práticas educacionais a serem aplicadas dentro de sala de aula. Infelizmente a pesquisa não faz parte da cultura escolar. O professor Hamilton Vieira, da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza, confirma isso dizendo que “a educação básica não é o lócus da pesquisa”.

O universo de trabalho no qual os professores(as) estão inseridos(as) cobra de maneira exaustiva um pragmatismo que acaba por distanciar o ensino da teoria. “Nesta direção, a aprendizagem adere a um contexto restrito entre o professor e aluno, desconectando assim a realidade e as condições materiais em que esses sujeitos estão inscritos”, afirma Vieira.

Para o professor Marcos Carneiro, as demandas de aprendizagem por um viés quantitativo também é um fator que impede o estímulo e fomento da pesquisa nas escolas. “É nessa lógica que o professor incorpora o papel meramente de executor de atividades pedagógicas no intuito de classificar os alunos em aprovados/reprovados, publicizando assim uma realidade completamente distante da práxis”, analisa.

O professor Hamilton Vieira ainda destaca que a pesquisa exige financiamento e tempo disponível. “Na sala de aula o professor da educação básica não tem tempo de pesquisar. Além disso, sem condições materiais e instrumentos para produzir ciência, ir a eventos, apresentar trabalhos, não é possível fazer pesquisa”. O professor Joel também compartilha desse ponto de vista: “A dificuldade sempre esbarra no tempo a ser despendido em um trabalho de pesquisa e muitas vezes no entrave de liberação do professor pelos órgãos educacionais, estado e principalmente município”.

Aproximação universidade e escola

Desde os anos 90, pensar a articulação entre o ensino e a pesquisa na formação e no trabalho do professor da educação básica está presente no cenário de discussão acadêmica. Hoje, por exemplo, o Plano Nacional de Educação (PNE 2014-2024) e o Plano Nacional de Pós-graduação (PNPG 2011-2020), ao lado de programas de fomento aos estudos e pesquisas em educação, se constituem como importantes instrumentos para a indução de políticas educacionais voltadas à aproximação da universidade com a escola de Educação Básica.

Estes esforços, em diversos âmbitos, se fazem cada vez mais presentes em razão da visão que coloca a pesquisa como elemento exclusivamente acadêmico e a exclui como parte da prática docente no cotidiano escolar. As tentativas de aproximar esses universos são desafios constantes que buscam desconstruir a hierarquia de conhecimentos, instaurada pelo afastamento da pesquisa na formação docente, e transformar práticas educacionais em todas as instâncias do sistema educacional brasileiro.

O coordenador da pesquisa Direitos Humanos, Cidadania e Violência: mediação de conflitos no ambiente escolar, vinculada à Universidade do Estado da Bahia (UNEB), José Cláudio Rocha, acredita que articular a pós-graduação com professores(as) da educação básica é um elemento fundamental para elevar o nível da escola básica. Para isso, é necessário, entre outras coisas, “difundir as diretrizes do PNE e orientar professores a como chegar na pós-graduação stricto-sensu”.


José Cláudio Rocha - UNEB

A pesquisa como elemento essencial na formação de professores(as) permite uma reinvenção do modelo superficial e técnico de ensino, na qual o objetivo é formar professores(as) críticos, reflexivos, ampliando assim o seu papel intelectual. A partir disso, estes sujeitos são capazes de se inserirem com mais fluidez e perspicácia no ambiente escolar e atuam de forma a buscar compreender melhor o seu cotidiano e pensar novas ações.

A professora e coordenadora do Observatório Alagoano de Leitura, Marinaide Freitas, aponta que o diálogo entre universidade e escola básica promove uma significação e ressignificação de práticas. “A articulação entre professores da educação básica com a pós-graduação permitiu a integração de aprendizagens, descobertas e significados de suas atividades, bem como um olhar mais consciente como sujeitos de seus processos formativos”, afirma.


Marinaide Lima de Queiroz Freitas - UFAL

Ao mesmo tempo, a professora declara que essa aproximação, além de proporcionar uma horizontalização de saberes, no sentido de acabar com a concepção de que a universidade detém a produção de conhecimentos, desconstrói a visão que torna teoria e prática elementos distintos e separa professores(as) de pesquisadores(as). “A oportunidade de pesquisa/formação com a escola permitiu que todos os sujeitos se constituíssem como pesquisadores dos seus saberes e, concomitantemente, de suas práticas. Todos se envolveram em processo de teoria - prática - teoria, rompendo com a dicotomia de que uns pensam e outros praticam”.

A professora Judith Leite, que integra o projeto A música de Dorival Caymmi e Luiz Gonzaga na prática de conjunto: uma proposta para o ensino coletivo do violão na rede pública estadual de ensino em Salvador, Bahia,considera que “a pesquisa para a docência é o oxigênio necessário para estarmos sempre nos atualizando e acompanhando as movimentações e criações artísticas e musicais”. Além disso afirma que a partir da pesquisa será capaz de “aprofundar cada vez mais na busca de novas metodologias”, ampliando, assim, o seu objetivo.

A articulação contínua entre a universidade e a escola básica, por meio da indução de políticas e programas de fomento, permite que ambos espaços obtenham ganhos e atinjam um objetivo comum. “Essa aproximação enriquece e favorece tanto a academia quanto a escola, que longe de disputar territórios deve estabelecer parcerias de entreajuda e cooperação, pois buscam alcançar o mesmo objetivo: o movimento do pensamento pelo conhecimento”, constata a professora de Educação Especial, Rosângela Kittel.

Acesse as entrevistas na íntegra:
Ana Silvia Ferreira Martins | UFPA | Professora da Educação Básica
Cristina Nascimento | UNEB | Professora da Educação Básica
Hamilton Pernick Vieira | UECE | Professor da Educação Básica
José Fernando Penna | UFOP | Professor da Educação Básica
José Cláudio Rocha | UNEB | Coordenador
Marcos Carneiro | UFRN | Professor da Educação Básica
Marinaide Lima de Queiroz Freitas | UFAL | Coordenadora
Rosângela Kittel | UDESC | Professora da Educação Básica

¹ estagiária de comunicação da ANPEd
Coordenação de reportagem e supervisão de estágio: João Marcos Veiga e Paulo Carrano

 

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