Entrevista RBE | artigo "O programa Bolsa Família e o acesso e permanência no Ensino Superior pelo PROUNI"

A Revista Brasileira de Educação (RBE), em seu lote de junho de 2019, traz o artigo "O Programa Bolsa Família e o acesso e permanência no Ensino Superior pelo Programa Universidade para Todos: a importância do 'eu me viro'", de autoria de André Pires, Paulo Cesar Ricci Romão, Victor Marques Varollo (PUC-Campinas). Confira entrevista com os pesquisadores, que apontam a necessidade de maior diálogo entre o Bolsa Família e políticas de inclusão no ensino superior, além da importância de se conhecer as trajetórias desses sujeitos como forma de aperfeiçoamento de políticas públicas. 

O artigo focaliza a trajetória de alunos cujas vidas acadêmicas se relacionam diretamente com a oferta dos programas Bolsa Família e Universidade para Todos (Prouni). O que lhes chamou atenção num primeiro momento nesta investigação?

Esta pesquisa está inserida dentro de um contexto mais amplo de investigações que, junto com meus orientandos da PUC-Campinas, vimos fazendo sobre as relações entre o Programa Bolsa Família (PBF) e a Educação. Como se sabe o Programa Bolsa Família, a partir de suas condicionalidades, confere um papel importante na educação como forma de enfrentamento da pobreza. Uma questão importante, decorrente desta premissa, é saber o que pensam os atores envolvidos nesta política sobre isso? Assim, fizemos pesquisas entrevistando beneficiárias do PBF com filhos matriculados na educação básica, com professores e equipes pedagógicas deste mesmo nível de ensino. A passagem para a educação superior foi quase que um passo “natural”. Como o local da investigação é uma Universidade privada sem fins lucrativos, imaginamos que encontraríamos alunos com vivências relacionadas ao PBF no conjunto dos alunos do Prouni desta instituição. E foi o que ocorreu. Chamou-nos atenção o número tão reduzido de estudantes que, tendo participado do PBF, chega ao ensino superior. Isto nos coloca um questionamento, retomado no final do artigo, que é refletir sobre possíveis formas de incentivo para a transição dos beneficiários do PBF, cuja exigência de frequência escolar se encerra aos 17 anos, no ensino superior. As políticas de inclusão no Ensino Superior atuais não dialogam com o PBF. Talvez uma contribuição da leitura do artigo seja pensar se este diálogo é pertinente ou não.

Como um contexto de privações pessoais e esforços familiares se evidenciam nessas trajetórias?

A expressão “eu me viro”, retirada da fala de uma entrevistada e que intitula o artigo, sintetiza como os esforços familiares e individuais são compreendidos por eles mesmos. Em nossa pesquisa, a experiência destes estudantes, que fazem parte do grupo de alunos mais pobres, dentre os mais pobres da Universidade, é permeada por narrativas que indicam altas doses de esforço e de privação pessoal. A presença das políticas públicas nesse percurso é sempre mediada pela questão do esforço, seja individual, seja familiar. E este é outro desafio importante no que se refere à formulação e à implantação de políticas públicas para os mais pobres, como também indicam outras investigações semelhantes.

A pesquisa capta uma maior valorização do Prouni frente ao Bolsa Família na perspectiva de superação buscada por esses estudantes. O que justificaria isso?

Temos algumas hipóteses para explicar esta diferença. O contexto onde a pesquisa foi realizada, uma IES privada sem fins lucrativos situada na região sudeste do Brasil, deve ser levado em consideração. O documentário de Ana Fonseca, uma das formuladoras do PBF (https://www.youtube.com/watch?v=sF8ppFUPpec), feito com ex-beneficiários do PBF matriculados em IES públicas do Nordeste, mostra uma situação muito diferente. O momento da realização das entrevistas, 2016 e 2017, marcado por manifestações onde se observava grande ataque aos gastos sociais do estado, sobretudo ao Bolsa Família, com grande repercussão na imprensa, pode também ter uma parcela de contribuição. Por último, o Prouni é considerado mais meritório do que o PBF, pois para dele participar é necessário obter uma nota mínima de 450 pontos no Enem e aprovação de pelo menos 75% das disciplinas cursadas em um período letivo. Ai a questão do “eu me viro”, tratada na pergunta anterior, volta a ter relevância.

Qual a importância da compreensão de trajetórias como essas para o entendimento dos dilemas de políticas públicas em educação no país, sobretudo em momentos mais dramáticos como o atual, de questionamentos da educação pública?

De fato, vivemos um momento dramático. Um governo que não tem projeto claro para a educação de um presidente que prometeu acabar com o “coitadismo” das políticas afirmativas durante sua campanha. As trajetórias destes estudantes mostram que este coitadismo nunca existiu, muito pelo contrário. Se eles valorizam mais o esforço pessoal do que as políticas públicas em suas trajetórias, penso que é o caso de aprender com essas experiências e aprimorar as políticas existentes e não enfraquecê-las. O Prouni e o PBF, por exemplo, são políticas relacionadas à educação, mas que não envolvem professores. Há muitos aspectos que poderíamos pensar em termos de aprimoramento destas políticas, e as experiências vividas pelos beneficiários são fundamentais nesse processo.

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