Entrevista RBE | "Ações Adotadas no Espírito Santo para vencer a repetência nas classes de alfabetização (1960 a 1970)"

A Revista Brasileira de Educação (RBE), em sua publicação de setembro de 2019, trará o artigo "Ações Adotadas no Espírito Santo para vencer a repetência nas classes de alfabetização (1960 a 1970)", de autoria de Cláudia Maria Mendes Gontijo (UFES) e Dulcinea Campos (UFES). Num período atual em que as políticas educacionais prometem "novos métodos" de alfabetização, o portal da ANPEd conversa com as pesquisadoras sobre tal contexto histórico de tentativas de homogeinização de turmas e práticas que não solucionaram a questão de repetência e levaram a uma maior exclusão. 

O que pretendiam as ações da Secretaria de Educação e Cultura no Espírito Santo no contexto do período analisado?

Ela pretendia solucionar o problema da reprovação, sobretudo, na 1a série do ensino de 1o grau, ou seja, no ano dedicado à alfabetização das crianças. Ao longo da história a reprovação sempre foi entendida como um desperdício de recursos públicos, impeditiva da entrada de novos estudantes nas escolas etc. e, por isso, sempre faltaram alternativas para buscar resolvê-la. Se levarmos em conta os censos e as notícias veiculadas pela mídia, esse é um problema que continua e, também, o modo como é visto igualmente não mudou. Recentemente, a mídia noticiou como a reprovação/repetência tem produzido desperdício de dinheiro público. Essa narrativa de cunho economicista não colabora para transformações desse quadro. Pelo contrário, contribui para responsabilização dos docentes e dos estudantes pelo fracasso escolar, esquecendo que sua origem está assentada nas desigualdades sociais e econômicas que tendem a ser acentuadas na atualidade.

O que a perspectiva de criação de turmas homogêneas e das formas de avaliação propostas ali dizem a respeito do pensamento de política educacional em curso à época?

É necessário observar que o estudo do passado pode colaborar para pensar o presente e, também o futuro e, dessa forma, pode contribuir para descontinuar a exclusão. As mesmas políticas adotadas pela Secretaria de Estado da Educação e Cultura do Espírito Santo são adotadas na atualidade para resolver os problemas semelhantes. Isso ocorre, porque os gestores da educação nacional e locais não têm levado em conta as pesquisas no campo da história da educação e, especificamente, da história da alfabetização. Na década de 1960 e 70, a Psicologia e a Linguística foram (e continua a ser) os principais campos do conhecimento que forneceram parâmetros para possíveis “tratamentos” das diferenças de modo que todas as crianças pudessem ser conformadas a partir de determinadas teorias de desenvolvimento e de linguagem. Porém, definições apriorísticas do ser humano que não levam em conta as práticas e as experiências dos sujeitos produzem discriminação e culpabilização das próprias crianças por não alcançarem ou não passarem pelos trajetos ou processos evolutivos esperados.

O artigo afirma que a estratégia adotada não contribuiu para índices de aprovação. O que explicaria isso? 

O fato de estar fundada em visões que não reconhecem as crianças, suas experiências e necessidades de aprendizagem e, portanto, em perspectivas que desconsideram as diferenças, pois a sua eliminação (e não o seu reconhecimento e valorização) produziria resultados escolares satisfatórios. Esse pensamento criou e tem criado um ambiente escolar inóspito para as crianças, contribuindo significativamente para a sua exclusão dos processos educativos institucionalizados. 

De que forma esse tipo de prática docente desconhece os dilemas da educação e das crianças nas escolas?

Em primeiro lugar, as práticas não são, necessariamente, docentes. Elas se tornam dos docentes, porque estes são cobrados pelos órgãos diretores da educação a seguir teorias e a aplicar testes padronizados. É interessante notar que, ao mesmo tempo em que são “obrigados” a cumprir o demandado, são responsabilizados pelos resultados que permanecem insatisfatórios (os docentes e as crianças). As práticas ou estratégias que visam solucionar o problema da reprovação, decididas em gabinetes, não desconhecem as crianças das escolas públicas. Apesar de o termo escola pública abranger uma diversidade de instituições, a grande maioria das crianças que frequenta esse tipo de escola é pobre. Esse fato é de conhecimento de todos (mesmo dos diretores da educação). A questão é que essas crianças não são reconhecidas, seus saberes, linguagens, pensamentos, formas de comportamento não são vistos como potência, mas como algo que precisa ser domesticado, com a finalidade de continuar as relações de dominação presentes na sociedade. É necessário salientar que, a despeito das prescrições, há, nas escolas, espaços criados por docentes e estudantes de reflexões e que, portanto, fogem às constantes tentativas de uniformização.

 

 

 

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