Entrevista com Priscila Vieira (UFSCar) e Thelma Matsukura |Artigo "Modelos de educação sexual na escola: concepções e práticas de professores do ensino fundamental da rede pública" |RBE n.69|

Já está disponível no Scielo a edição de nº69 da Revista Brasileira de Educação (RBE), publicação da ANPEd. Compõe nesta edição, entre outros artigos, o "Modelos de educação sexual na escola: concepções e práticas de professores do ensino fundamental da rede pública". As autoras, Priscila Mugnai Vieira e Thelma Simões Matsukura da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR/SP), produziram um trabalho a partir da análise dos conteúdos e práticas de Educação Sexual, em 10 escolas públicas no munícipio de São Carlos. Nele elas identificam dois modelos nos quais os professores se apoiam para tratar sobre educação sexual, o biológico-centrado e preventivo e o biopsicossocial. 

Clique aqui para acessar o artigo na íntegra.

Confira entrevista com Priscila Mugnai Vieira (UFSCar) e Thelma Simões Matsukura (UFSCar):

No artigo são expostos dois modelos nos quais os professores se apoiam para tratar sobre educação sexual. "No modelo intitulado biológico-centrado e preventivo, as práticas mostraram-se mais restritas aos aspectos biológicos da sexualidade e focadas nas questões de prevenção de DST e gravidez na adolescência. Já no modelo biopsicossocial, as práticas revelaram-se mais ampliadas no que concerne à concepção de sexualidade e conteúdos abordados, de forma que questões sociais, culturais e subjetivas eram incluídas nas intervenções." Qual a importância de se ampliar para além das disciplinas de ciência e/ou biologia a educação sexual? E quais seriam essas disciplinas?

Outras disciplinas que não das áreas biológicas podem em muito contribuir com saber diferenciados que propiciem reflexões e debates acerca das dimensões subjetivas e sociais que envolvem a sexualidade humana. Somos impactados e construídos em nossos desejos, comportamentos e atitudes a partir de atravessamentos históricos, culturais e sociais. Ou seja, a sexualidade, que compõe nossa subjetividade sofre afetações do entorno, o que justifica as mudanças nas expressões e visibilidade da sexualidade na atualidade e ao longo dos tempos.
Não se trata de negar as dimensões biológicas da sexualidade, bem como a legitimidade de se abordar métodos de prevenção e outras questões mais vinculadas aos aspectos fisiológicos humanos. Tais abordagem favorecem o conhecimento sobre utilização de métodos contraceptivos, bem como sobre Doenças Sexualmente transmissíveis. O fato é que até mesmo tais temáticas precisam ser trabalhadas integradas aos significados e dimensões associadas,  por exemplo, ao ato de adotar um método contraceptivo. Ou seja, o ato de se prevenir envolve aspectos mais subjetivos, complexos e sociais da vida dos sujeitos, como por exemplo projetos de vida, perspectivas de futuro, papéis de gênero.
Consideramos que a sexualidade se trata de uma temática transversal, cuja abordagem pode ocorrer em qualquer disciplina, desde mais exatas, como matemática, com abordagem de dados estatísticos de sexualidade em problemas, por exemplo, ou até mesmo em História e artes, abordando a expressão histórica da sexualidade humana ao longo dos movimentos históricos e da história das artes. Demanda-se assim a utilização de recursos diversos e a expressão da criatividade dos educadores que podem integrar a sexualidade enquanto tema transversal em suas disciplinas, conforme sugere os Parâmetros Curriculares Nacionais. Vale destacar, que em vivências práticas de Educação Sexual nas escolas revelou ser a sexualidade uma temática infindável a ser trabalhada junto aos adolescentes. Eles costumam estar curiosos e abertos às discussões, sendo que os tabus muitas vezes estão mais associados aos educadores que aos educandos.

Priscila Mugnai Vieira (UFSCar)


Ao final do texto é destacado "sugere-se que nas práticas sejam utilizadas linguagens e metodologias mais ativas, dinâmicas e atuais, nas quais os próprios adolescentes tornem-se participantes ativos e possam também colaborar com a construção das propostas de educação sexual." Quais práticas podem ser exemplificadas para estimular esse participação mais ativa e autonoma dos estudante?

Na perspectiva apontada pelo artigo, defende-se a idéia de protagonismo juvenil, na qual os adolescentes são co-construtores das práticas junto a eles desenvolvidas. Eles podem imprimir seus interesses, características e idéias de forma que as ações sejam mais significativas e tragam maiores repercussões no sentido de resultados positivos e que favoreceriam a adoção de posturas mais autônomas e críticas. De um modo geral as metodologias de abordagem em Educação Sexual ainda são bastante passivas para o adolescente, sendo focadas em modelos mais expositivos e pouco interativos. Inclusive as temáticas discutidas no campo das práticas de Educação Sexual precisam abarcar o interesse dos adolescentes.
Ou seja, uma proposta educativa mais empática e interativa, que tenha como fio condutor a própria realidade vivida pelos adolescentes e jovens. Nesta direção, é possível sugestões que envolvam o uso de filmes, fotografias e até mesmo músicas e letras de variados gêneros, inclusive o funk, por exemplo, que embora tragam uma erotização escancarada em muitas de suas letras, podem fornecer uma potente possibilidade de exploração de reflexões críticas sobre papéis de gênero, dentre outras temáticas. 
Ainda acerca da participação dos adolescentes na construção dos projetos de Educação sexual, ressalta-se o quanto há possibilidade de nos depararmos com positivas surpresas de adesão às atividades, resultado do empoderamento no que tange à organização das ações. Além disso, essa prática mais ativa na construção de todo e qualquer conhecimento trata-se de um incentivo para o exercício da autonomia do sujeito para vida como um todo e, no caso da Educação Sexual, pode favorecer o exercício responsável da sexualidade.

Thelma Simões Matsukura (UFSCar)

Atualmente movimentos como o Escola sem Partido tem se intensificado. Em alguns municípios, influenciados por essa proposta, as temáticas sobre identidade de gênero e orientação sexual têm sido censuradas nos currículos escolares. Assim como, esses mesmos termos foram retirados do novo texto da Base Nacional Comum Curricular. Como vocês avalia esses projetos e seu reflexo na educação sexual dentro das escolas? 

A escola é um espaço de extrema potência para a reflexão e formação de pensamento crítico dos sujeitos. Do mesmo modo o professor tem um papel de mediador deste processo, possibilitando e compartilhando conhecimento e reflexões e não induzindo modos de pensar. Temáticas que envolvem as diversidades, sejam elas sexuais, de gênero, sociais ou políticas, precisam ser debatidas balizadas em perspectivas que favoreçam a desconstrução de paradigmas preconceituosos e estigmatizantes das diversidades, de forma que estas sejam reconhecidas como diferenças e não desigualdades.
Consideramos um significativo retrocesso criar atos políticos que desconstroem os avanços do espaço escolar, no sentido de conceber os saberes apenas técnicos, para a construção de pensamentos críticos e éticos. A Educação Sexual já foi abordada de diferentes modos no espaço escolar, assim como também foi negligenciada e silenciada. Garantir sua abordagem nos currículos extrapolando aspectos biológicos e relativos estritamente à reprodução humana, abarcando os aspectos subjetivos e sociais que envolvem a sexualidade, é uma forma de favorecer e garantir o direito aos adolescentes de refletirem sobre essa dimensão de sua vida. Abordagens e debates no espaço escolar  acerca das identidades de gênero e orientações  sexuais, por exemplo, irão favorecer a desconstrução de tabus e preconceitos e, destaca-se, isso em nada ameaça os desejos e orientação sexual de adolescentes, o que tais discussões provocam é a reflexão acerca de respeito e tolerância às diversidades. Tornar coletivos mais tolerantes são estratégias que podem favorecer a redução de violências sociais em prol de sociedades mais pacíficas e equitativas no que concerne aos direitos sociais. 
 

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