Desafios e Perspectivas para o próximo quadriênio na pós-graduação em Educação (2018/2021)

A pedido da ANPEd, o professor do PPGEd da UFPR Ângelo Ricardo de Souza analisa os "Desafios e Perspectivas para o próximo quadriênio na pós-graduação em Educação (2018/2021)". O pesquisador do Núcleo de Políticas Educacionais (NuPE) foi um dos cinco nomes indicados pela Associação à CAPES para escolha do coordenador de área para tal quadriênio na agência de fomento.

Desafios e Perspectivas para o próximo quadriênio na pós-graduação em Educação (2018/2021)

Até 2016, tínhamos 170 programas de pós-graduação (PPG) em Educação no Brasil no sistema CAPES, sendo 126 acadêmicos e 44 profissionais, o que representou um crescimento de quase 120% na última década. Esse quadro crescente de programas tem múltiplas complexidades, evidenciadas: a) tanto pela quantidade, quanto pela diversidade de instituições, de modalidades e portes; b) pelas situações de evidente desigualdade nacional de condições e de resultados; c) pela forte pressão sobre a produção intelectual docente; d) pela necessidade de se reforçar a ideia de que o centro do processo avaliativo é saber se somos bons docentes-pesquisadores e formamos bons quadros novos; e) pela necessidade de aprofundarmos os elos entre a PG e a educação básica, dentre outros aspectos.

Tal situação, somada às metas colocadas pelo Plano Nacional de Pós-Graduação 2011-2020 e pelo Plano Nacional de Educação 2014-2024, em especial a meta 14, resulta em desafios para os pesquisadores e coordenadores, especialmente em um contexto de crise política e falta de recursos financeiros.

Mesmo com os avanços que a área da Educação no Sistema Nacional de PG tem encontrado, ainda resistem problemas (antigos e novos) que são obstáculos ao avanço da qualidade da área. Dentre tais questões, destaco a necessidade de ampliação dos canais de diálogo; o aprofundamento das discussões e construção de melhores parâmetros para a avaliação dos Periódicos e Livros; a internacionalização; os programas de mestrado e doutorado profissional; e a inserção social dos PPG.

Diálogo: escuta e comunicação na base da avaliação e planejamento da área

A lida com a produção e avaliação da PG demanda ser realizada da maneira o mais horizontal possível, pois a área é produzida pelos próprios docentes e discentes, de forma que estamos inseridos em um complexo e sofisticado sistema de (avaliação da) pós-graduação, no qual a incorporação de uma série de regras, diretrizes e parâmetros é compulsória, mas onde também há uma margem razoável para autonomia na definição do que entendemos por (avaliação da) pesquisa e pós-graduação em educação. Isto implica em mais esforço na construção de consensos, buscando argumentos e, ao mesmo tempo, escutando as dúvidas, experiências, propostas, críticas.

Ainda com algumas modificações, a base do sistema tem se mantido ao longo dos ciclos avaliativos, portanto, é preciso compreender que alterações maiores demandam tempo. O que significa que a área precisa se comprometer com um projeto de PG que lhe permita mais do que prever o futuro (em relação ao crescimento, aos problemas), antecipar-se e interferir no lugar e na condição que pretende ocupar adiante, buscando mecanismos mais justos, tecnicamente, para se aferir a qualidade de cada um dos programas e da área como um todo e, ao mesmo tempo, construir uma avaliação que possa ser mais bem utilizada como ferramenta pedagógica na busca por melhor qualidade do trabalho na PG. A escuta é determinante para tanto, pois permite a exposição de olhares e perspectivas diferentes, que advém de programas que também são muito diferentes. O que pode implicar não em um, mas em vários desenhos para o futuro.

Qualis: a construção de um indicador para os periódicos e o respeito à produção da área em livros

O Qualis Periódicos da área da Educação passou por alguns problemas neste último quadriênio. Tínhamos uma base, de anos anteriores, que vinha acumulando alguns problemas, com avaliação subestimada de alguns periódicos nacionais da área. Dentre as revistas internacionais, também tínhamos alguns problemas, especialmente com os periódicos chamados “predatórios”, que, neste caso, apresentavam avaliação superestimada.

Mas, já no processo avaliativo realizado em 2016, boa parte disto foi equacionada, com as devidas classificações revistas. A avaliação feita em 2017, em linhas gerais, corrigiu quase toda a parte residual daqueles problemas. De toda forma, o Qualis Periódicos precisará ser revisto. Nossa atual avaliação tem méritos, mas também oportuniza um “jogo”, no qual dada revista pode cumprir os critérios, sem, necessariamente, alcançar reconhecimento e impacto científico na área. Para melhorar este processo serão necessários mecanismos mais objetivos, e isto será inevitável, pelo que se depreende dos posicionamentos do CTC-CAPES na discussão e aprovação dos Qualis das demais áreas em 2016/2017.

Quanto aos livros, a área da Educação tem longa tradição na difusão do conhecimento utilizando este meio. Mas a crescente produção por este veículo (chegando aos 5 mil livros enviados para avaliação neste último quadriênio), torna a avaliação virtualmente impossível de ser realizado com o devido rigor e justiça.

Continuaremos escrevendo livros e isto é muito bom! Mas, se desejamos continuar considerando esta produção como produtos bibliográficos dos docentes, é preciso melhorar muito o processo, de maneira a torná-lo mais fidedigno e garantir que o esforço de produção docente seja reconhecido na proporção devida. Não parece mais possível continuarmos olhando para cada obra publicada, tentando colocá-la em uma categoria/estrato, sem ter tempo ou condições de lê-la integralmente. E ler todos esses livros, de maneira concentrada em duas semanas, por uma equipe de especialistas, também é inviável.

Portanto, em perspectiva, teremos que encontrar alternativas, dentre elas: a) envolver os programas, que podem fazer uma pré-avaliação, classificando sua produção nos respectivos estratos, para posterior avaliação de verificação; b) avaliar uma parcela dos livros, indicada pelos próprios programas, que poderiam informar o que de mais substancial produziram no período; c) constituir uma comissão em articulação com a ANPEd, mais ampla, permanente, que funcione em câmaras, com a atribuição de receber os livros, em fluxo contínuo, lê-los e avaliá-los.

Internacionalização: compromisso com a socialização global do conhecimento

As ciências humanas no Brasil, em geral, apresentam alguma dificuldade de expandir as fronteiras e atingir outros países, em especial levar os resultados de nosso trabalho para pesquisadores estrangeiros. A barreira linguística é um problema, mas mais que isto, a natureza dos objetos de pesquisa também não oportuniza muito diálogo internacional. Na área da educação, temos alguns poucos campos de conhecimento que têm um debate mais evidente com a comunidade internacional. Mas, este pouco debate, de qualquer forma, tem se restringido mais à participação em eventos e realização de estágios de pesquisa no exterior.

Assim, é fundamental indicarmos à área a importância de se compreender que o objetivo de internacionalização está associado ao compromisso de levar para além das fronteiras nacionais nossos achados de pesquisa, e isto implica, antes de tudo, em publicação no exterior (difusão da pesquisa), intercâmbios de pesquisa (troca de conhecimentos), intercâmbio da formação (mobilidade), recebimento de docentes e discentes estrangeiros (captação de pesquisadores) e redes internacionais (integração e financiamento).

Programas de mestrado e doutorado profissionais

Houve um crescimento significativo de mestrados profissionais nesses últimos quatro anos, sendo que em nossa área eles já respondem por 25% do total. A perspectiva é que esta modalidade crescerá ainda mais com a proposta de Doutorado Profissional, que representa um passo importante para a PG no país, mas que deve ser implementada com cautela e rigor científico, cuidando para se evitar que tenhamos a perda da equivalência de títulos entre acadêmicos e profissionais.

Outro desafio para esta modalidade tem relação com a avaliação, pois tais PPGs vêm sendo avaliados pela régua e procedimentos dos acadêmicos, em grande medida. É certo que temos similitude entre acadêmicos e profissionais, mas temos diferenças significativas também. Por exemplo, na avaliação da produção intelectual docente, temos um só Qualis para a área, ignorando que dados periódicos ou livros podem ter escopos diferentes e, com isto, ter mais impacto nos programas profissionais que nos acadêmicos (ou o oposto), enviesando os resultados.

Mesmo com o reconhecido e importante avanço nos documentos de área para os mestrados profissionais, ainda necessitamos tornar mais precisos os conceitos de produto de conclusão e sobre a natureza das pesquisas desenvolvidas nesta modalidade, para realizarmos melhor sua avaliação.

A inserção social dos PPG em Educação

A inserção social dos PPGs em Educação vem se ampliando e com perspectiva de contínuo crescimento, tendo em vista o contexto nacional e a necessidade de maior articulação dos programas com a sociedade como um todo, mas também entre os programas e com a educação básica.

Mas, o grande desafio continua sendo a avaliação desta dimensão na avaliação quadrienal, que necessita critérios mais objetivos e transparentes, para se evitar que ela se torne apenas um item formal no preenchimento do relatório pelos programas e para permitir que a comunidade científica conheça o alcance de cada programa e da área como um todo na sociedade.

Diante desse breve panorama e conjunto de ideias, e buscando uma síntese, considero que, para a área da Educação, é fundamental; - Reforçar os canais de comunicação e momentos de diálogo na área (coordenadores de PPGs, editores, entidades científicas, agências financiadoras e de avaliação); - Manter o reconhecimento da produção docente em livros, mas rever drasticamente a forma de avaliá-los; - Discutir e definir com a área mecanismos mais ágeis e objetivos na avaliação de periódicos, buscando construir um indicador que a balize; - Aprofundar o debate e construir parâmetros mais adequados para os programas profissionais; - Incentivar a internacionalização da área; - Auxiliar no debate com vistas à constituição de novas formas de conceituar e mensurar a qualidade da inserção social dos PPG.

Este breve quadro de desafios e perspectivas para a PG em Educação no Brasil, se lido e compreendido com cuidado, e se sobre ele nos debruçarmos para aprofundar e conhecer os cenários futuros, antecipando situações e problemas, mesmo com o contexto de forte crise, pode contribuir para fazermos melhor o que sabemos e gostamos de fazer: pesquisar, ensinar, formar mestres e doutores, com qualidade e compromisso social.

[1] Professor e Pesquisador do Núcleo de Políticas Educacionais (NuPE), do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). angelo@ufr.br; angelosou@gmail.com

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