MANIFESTO
DO GT 10 – ALFABETIZAÇÃO, LEITURA E ESCRITA
A PROPÓSITO DAS AÇÕES DA COMISSÃO DE EDUCAÇÃO,
CULTURA E DESPORTO DA CÂMARA FEDERAL SOBRE O TEMA ALFABETIZAÇÃO
INFANTIL
Professores e pesquisadores de todo
país vêm há décadas trabalhando pela compreensão
de aspectos sociológicos, políticos, antropológicos,
psicológicos, lingüísticos, biológicos e pedagógicos
envolvidos no processo de alfabetização. Busca-se contribuir
tanto para uma teoria da aquisição da linguagem escrita,
quanto para a elaboração de propostas político-pedagógicas
de ensino-aprendizagem da mesma linguagem. Da década de 80 até
o início do século XXI, principalmente, o conhecimento
da área se ampliou e aprofundou sobremaneira, apontando a necessidade
de abordagem multidisciplinar para dar conta de sua complexidade.
É sabido, entretanto, que o acesso, a socialização
e o debate sobre estes novos modos de abordar o processo de alfabetização
ainda se restringem a uma parcela pequena do conjunto de professores
brasileiros, por questões de várias naturezas. O fracasso
na escola ainda marca uma parte significativa da população.
Muitos alunos, além disso, são considerados alfabetizados
pela escola, no entanto, não conseguem participar das práticas
sociais que envolvem a leitura e a escrita.
Destacamos, além da dimensão científica, a natureza
política da questão na perspectiva de que forças
sociais conservadoras do país, ainda hegemônicas, têm
funcionado historicamente como um filtro dissimulado para impedir que
a maioria da população brasileira se alfabetize. Tal direito
vem sendo negado, como outros, inviabilizando não só outras
formas de ler o mundo, como a participação democrática
na construção de uma sociedade mais justa.
Nesse sentido, estranhamos e indignamo-nos com o trabalho que está
sendo realizado pela Comissão de Educação, cultura
e desporto da Câmara Federal, que, liderada pelo deputado Gastão
Vieira, deixa-se mover por interesses econômicos do editor de
uma cartilha e do autor de um livro sobre método fônico.
Uma manobra estreita está sendo conduzida por tal comissão,
por meio de questionários para universidades, secretarias de
educação municipais e estaduais, bem como para editoras,
elaborados de forma tendenciosa e manipuladora, reduzindo a metodologia
de alfabetização a uma receita. Com certeza, a demanda
de professores, de pesquisadores e da sociedade é que seus representantes
na Câmara Federal trabalhem com dignidade pela superação
dos desequilíbrios sociais de todos os tipos, inclusive o da
distribuição de bens culturais, o que inclui a linguagem
escrita.
Causa-nos indignação, do mesmo modo, que tenham usado
o nome da Prof. Dra. Magda Becker Soares, incluindo-o na Comissão,
pesquisadora que merece o maior respeito da comunidade acadêmica
pela contribuição relevante que vem há muitos anos
fazendo à educação brasileira, especialmente ao
ensino de língua materna e à alfabetização,
dedicando-se, entre outros temas, a analisar o estado do conhecimento
sobre alfabetização.
Os professores brasileiros merecem respeito. A criação
de teorias e práticas educativas se faz no movimento complexo
de diferentes áreas de conhecimento, de muitos autores, de muitos
diálogos e de muitas ações pedagógicas.
Esperamos que os deputados federais da Comissão de Educação,
cultura e desporto trabalhem criando condições políticas
que gerem novas formas de organização social, favorecendo
a apropriação da linguagem escrita por todos os brasileiros.
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