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Coletiva
de imprensa com o Ministro da Educação Cristovam Buarque
O Ministro
da Educação concedeu uma coletiva para a imprensa
antes da abertura do FME. Abaixo, encontra-se sua transcrição
- Por Ana Teresa Gotardo
Linha de
trabalho que vai adotar
Idéia a gente tem como professor; como ministro, a gente
tem propostas e ações depois delas aprovadas pelo
presidente da república. Três grandes idéias,
os três grandes eixos de propostas que estão sendo
nesse momento analisadas são, em primeiro lugar, erradicar
o analfabetismo em todo país no prazo de quatro anos; em
segundo lugar, a implantação de uma escola que seja
compatível com as necessidades deste século XXI, uma
escola ideal para nossas crianças e jovens naquelas cidades
e estados onde houver cooperação e entendimento do
prefeito e/ou do governador; em terceiro lugar, a construção
de uma nova universidade no Brasil que sirva à realidade
que o mundo precisa e o nosso país também. Uma universidade
que seja capaz de acompanhar a velocidade com que o conhecimento
é feito hoje e se espalha e também que esteja sintonizada
com as exigências éticas de um mundo com tanta exclusão.
Tudo isso é pra ser feito (?) acompanhando as exigências
emergenciais de cada um dos setores da educação no
Brasil.
Quando é
que as políticas vão ser efetivamente anunciadas?
Anunciadas? Algumas já foram, algumas já estão
em execução.
À
exceção da bolsa-escola, nenhuma outra política
foi anunciada ainda. Eu gostaria de saber se o senhor está
priorizando a política de negociação para posteriormente
anunciar as políticas.
Não, já foi anunciado o programa de alfabetização
num prazo de quatro anos, já foram definidas as linhas, porque
isso é basicamente uma tarefa do governo federal. No que
se refere à escola ideal para o ensino básico, nós
vamos ter duas reuniões: uma com todos os secretários
estaduais, ainda no mês de janeiro, e outra no mês de
fevereiro com 1100 dos secretários municipais. Aí
juntos nós vamos construir, porque não haverá
a ótima, a ideal escola que a gente quer se não houver
envolvimento dos prefeitos e dos governadores. Na ponta, quem faz
é o prefeito e o governador. No próximo sábado
(25/01), aqui mesmo em Porto Alegre, eu estarei todo o dia, o dia
inteiro no próximo sábado com os reitores das universidades
federais onde vamos discutir duas perguntas: a primeira, o que é
que a universidade brasileira pode fazer para construir um novo
Brasil; a segunda, o que é que o governo tem que fazer pela
universidade brasileira.
A educação
vai dobrar à esquerda? O que é uma educação
pelo social?
Eu não disse apenas a Educação. Eu disse que
o presidente Lula e digo que nós precisamos governar como
esquerda. Para mim, dobrada à esquerda, isso vai servir muitos
anos pelo meu partido, significa políticas sociais que consigam
erradicar a exclusão social. Houve um tempo que dobrar à
esquerda era construir a igualdade. Hoje é o momento que
dobrar à esquerda é uma nova exclusão: todos
comendo, como é o fome zero. Todos concluírem o segundo
grau com qualidade: eu chamemos isso de uma educação
mil. Termos um sistema de saúde que atenda de maneira muito
próxima a todos os brasileiros, não como é
hoje, alguns com excelente sistema de atendimento médico
e outros com um péssimo. E todo mundo, sem exceção,
ter um lugar onde morar com água potável, coleta de
lixo e sistema de esgoto. Isso é dobrar à esquerda:
fazer com que todos os brasileiros tenham isso no prazo em que for
possível
Qual a diferença
em pagar o bolsa-escola 15 reais por criança a 45 por família?
Primeiro, a idéia não é 45, é 65, sendo
que 45 sairia do governo federal e mais 10 do estado e 10 reais
do município. E a diferença é de quase 5 vezes
mais.
Como avaliar
sistemas de avaliação do ensino como ENEM e Provão?
Nós somos tão radicalmente a favor da avaliação
que nós queremos avaliar até mesmo a avaliação.
É preciso lembrar que o ministro Paulo Renato, que eu acho
que deixou uma marca positiva ao deixar a cultura da avaliação,
ele utilizou uma avaliação que eu fazia como reitor
da UnB em 1987 e melhorou bastante. Ele avançou nisso. Agora
nós vamos avançar, estamos trabalhando, não
vai haver interrupção no processo de avaliação;
o que a gente fizer é em marcha para melhor. Temos que avaliar
mais rigorosamente, mais amplamente e de uma forma mais eficiente.
Toda avaliação tem de ser constantemente avaliada
ela própria.
Sobre a questão
da nova universidade:
No próximo sábado eu vou estar inaugurando o debate
que levará a isso com os reitores das federais aqui mesmo
em Porto Alegre. A proposta é que a partir daí nós
vamos chamar um grupo de 5, 6, 7 pessoas que vai formular um projeto
novo e em outubro nós vamos fazer um grande encontro internacional
com o apoio da UNESCO, já está acertado esse acordo,
para debatermos como deve ser a universidade do Brasil pelos próximos
30 anos. A última reforma feita na universidade brasileira
foi feita pelos militares (...). Mudou muito o mundo de lá
pra cá e mudou sobretudo o governo que dirige o Brasil. Tá
na hora de um novo projeto (...), sem deixar de cuidar dos aspectos
emergenciais que as nossas universidades padecem hoje.
Sobre o programa
de alfabetização: essa sua proposta de trabalhar com
os universitários que se desloquem afim de alfabetizar as
pessoas. Como é que isso vai ser possível, por exemplo,
num dado: a maioria dos universitários estão nas regiões
sudeste e sul do país; a maioria de analfabetos na região
nordeste. Como fazer isso, como é que as pessoas vão
poder se deslocar, como é que vai ser na prática?
Não vão se deslocar; eles cuidam dos analfabetos nos
lugares onde houver universidades.
E no nordeste?
Os professores. A idéia , inclusive, não é
basear-se em universidade; a idéia é basear-se todos
que quiserem ser alfabetizadores pagando. Não vai haver trabalho
necessariamente voluntário. Quem quiser fazer voluntariamente,
fará. Se universitário quiser fazer, acho que vai
ser ótimo para a formação dele, mas os secundaristas
também podem ser alfabetizadores. E os professores da rede
pública que quiserem, à noite, poderão ser
alfabetizadores de tal maneira que a gente quer que, dos um milhão
e meio de professores, mais três milões de universitários,
são 4,5 milhões de pessoas perfeitamente hábeis
para serem alfabetizadores. E a gente só precisa de 72 mil
ao longo de quatro anos para alfabetizar 20 milhões. Não
é muito. Na verdade, 70 mil, tirar de 4,5 milhões,
não é muita gente. É pouca. Pagando um pouco,
esse pessoal virá. Onde os universitários tiverem,
eles ficam aí. Onde eles não tiverem, há os
professores. E é possível, nós temos que ser
muito claros, que é possível que, em lugares muito
remotos onde tiverem analfabetos, a gente não chegue lá,
como até a gotinha da Poliomielite tem lugares onde que fica
difícil chegar. Mas vamos tentar chegar em todos eles.
E o método?
O método será absolutamente livre. Quem tiver o seu
método...
O senhor
ignora a questão da pedagogia? O senhor não acha que
esse seu projeto de erradicação do analfabetismo vai
de encontro à carta proposta, por exemplo, pelo fórum
social?
Qual carta? Ela diz que só tem um método?
E a pedagogia?
Ela morre, então?
Não, quem disse que morre? Eu disse que há muitos
métodos pedagógicos. Todos eles...
Mas qualquer
universitário vai ser capaz de atuar nesse nível?
Não, eu fiz questão de dizer que só virão
os universitários: primeiro, que quiserem, que serão
treinados, formados. Eu fui estudante de engenharia e alfabetizador
no programa organizado por Paulo Freire...
Paulo Freire
aprovaria esse método?
Ele me convidou, não pessoalmente, mas eu participei do método
Paulo Freire na PUC...
Ele continua
referência?
Eu acho que ele continua referência, mas não só
ele. Nós temos que ser livres. Alfabetização
visa liberdade. Ela não pode começar sob o signo do
autoritarismo de qualquer um dos métodos existentes. Vão
ser livres. Agora, vão ser formados. Aqueles que forem capazes
de serem alfabetizadores, serão; os que não forem,
não serão. Mas método pedagógico tem
que desenvolver muitos. Mas livremente. Se amanhã inventarem
uma injeção que alfabetiza, a gente vai comprar a
injeção.
Como o governo
Lula pretende complementar o financiamento da Educação?
O Brasil abandonou porque começa a discuti-lo como financiar.
A gente tem que começar discutindo o que fazer, depois como
fazer, depois os recursos que precisam, depois o dinheiro. Mas a
gente analisa tudo, tudo, se não vier nenhum recurso de fora
do governo, precisaria de 1,5 bilhão por ano. 1,5 bilhão
é 0,1% da renda nacional. 1 em cada 1000 reais que esse país
produz. Será que o Brasil não está disposto
a pegar 1 em cada mil reais e usar para a educação?
Custou mais caro erradicar a escravidão. O povo brasileiro,
alia´s, a elite brasileira, em 1888, pagou para abolir a escravidão.
Será que nós vamos pagar agora para abolir o analfabetismo?
É muito pouco o que vai custar isso.
Quais são
os parceiros mais próximos para esse trabalho?
Todo aquele que quiser participar desse processo, o setor privado...
mas sobretudo os governos municipais, estaduais e a união,
esses três grandes parceiros que vão bancar, financiar,
apoiar. Os que vão executar, as universidades, as redes públicas
de ensino e todos aqueles que sabem ler e querem dedicar algumas
horas por semana durante um certo prazo para que esse país
possa dizer ao mundo inteiro: aqui, no espírito até
do Fórum Social, no espírito daquilo que Porto Alegre
deseja aqui, nós demos um exemplo - entrar o século
XXI sem analfabetismo de adultos.
Existe uma
provocação para eliminar o vestibular para ingresso
na universidade. Gostaria que o senhor fizesse um comentário
sobre isso, que outras formas de ingresso nós teríamos
para as universidades, tendo em vista a demanda e o baixo número
de vagas que as públicas oferecem?
Nunca se falou em eliminar instrumentos de ingresso na universidade.
Nunca a universidade vai ser capaz de receber todos que terminam
o segundo grau. Isso é até uma arrogância dos
universitários achar que todo mundo quer entrar na universidade.
Sempre vai haver mecanismos de avaliação. O que eu
defendo é o que eu implantei como governador, que eu tentei
como reitor, é que metade dos alunos que entram na universidade
sejam escolhidos dentro do ensino médio. Em Brasília,
já há 7 anos, metade dos que ingressam na universidade,
ingressam graças às notas que tiram em três
provas que a universidade aplica durante o ensino médio:
uma no final da primeira série, uma no final da segunda série,
outra no final da terceira série. Os alunos que tiverem a
maior média nas três provas entram na universidade.
Com isso a gente consegue que os alunos estudem mais durante o ensino
médio, a gente consegue evitar aquela tragédia da
sorte de uma só prova, um só exame entra ou não
entra na universidade e a gente consegue uma combinação
melhor da universidade com o ensino médio.
O que o governo
pretende fazer com as vagas ociosas?
Nessa reunião que teremos sábado próximo com
os reitores das universidades federais nós vamos discutir
o problema das vagas ociosas, qual a forma de preencher essas vagas.
Essa é uma determinação que não saiu
do Ministério da Educação, mas do próprio
Presidente da República. Ele me disse: "eu não
quero vagas ociosas nas universidades federais brasileiras".
E eu, como ministro, vou levar adiante isso, obviamente respeitando
a autonomia das universidades, conversando com os reitores, alunos,
professores e servidores.
Existe algum
projeto ao alternativo ao FIES?
Ao FIES como instituição não, mas a forma como
financiar o valor estamos trabalhando e vamos ter a proposta clara
para melhorar as condições do financiamento. Essa
é outra grande preocupação do Presidente Lula,
ele sempre manifestou isso na campanha, ele disse mais uma que poucas
coisas são mais tristes que ver um jovem que passou no vestibular
abandonando o estudo por falta de dinheiro, e nós vamos querer
resolver através do FIES pelo menos uma boa parte desses
jovens que saem das escolas por falta de recursos.
A ministra
Marina Silva disse recentemente que está buscando o Ministério
da Educação para haver algum tipo de acordo em relação
à Educação Ambiental, uma iniciativa que seria
inédita no país, porque nunca se conseguiu fazer isso
antes. Eu gostaria de saber o que poderia ser feito em relação
a isso.
Já estamos trabalhando. Colocar o sentimento ético
desde a infância. Mas não é só o ensino
relacionado com os problemas ambientais. A gente tem que levar desde
para a primeira idade, para a primeira infância, todos os
problemas da contemporaneidade. A criança é capaz
de entender de ética às vezes melhor do que você.
Somos viciados com certos valores. A criança é perfeitamente
capaz de entender o problema dos transgênicos, da clonagem.
Nós temos que levar os temas da contemporaneidade desde a
primeira infância, inclusive os problemas ambientais. Elas
são muito mais sensíveis as crianças ao respeito
à natureza do que os adultos. Basta a gente levar com carinho
e competência esse assunto.
Como o governo
Lula pretende tratar a especificidade da educação
no campo?
Esse é um bom tema, eu fico contente que você tenha
trazido porque esse tema eu comecei agora a discuti-lo com o MST.
Discuti numa reunião com o MST e eu quero deixar claro que
eles me despertaram para o assunto. Nós vamos, sim, procurar,
dentro da idéia dos grandes eixos da Educação
que é jovem, futuro, qualidade, inclusão social, mulheres
é um tema fundamental, a gente quer incluir também
como eixo o fato de que há uma diferença na educação
da cidade e na educação do campo. Houve, nos últimos
anos, uma ditadura no sentido de levar para o campo a cultura, os
valores e a educação características da cidade.
Nós vamos trabalhar isso, não temos ainda a proposta
feita, mas nós estamos trabalhando juntos com o grupo do
MST, vamos procurar a CONTAG e formular um eixo de educação
para o campo.
Em termos
da prevenção e risco da criança e do adolescente?
Eu e o presidente já acertamos, e eu fico muito satisfeito,
que nós tenhamos uma política imediata para dois que
são os maiores problemas de risco: as crianças que
trabalham e, especialmente aí dentro, a prostituição
infantil e juvenil. E nós temos um programa. O programa é
simples: é uma bolsa-escola num valor satisfatório
e uma escola agradável. Se houver uma remuneração,
as crianças não vão precisar trabalhar, e se
houver uma escola agradável, essa escola vai segurar as crianças.
E nós vamos trabalhar nas duas linhas: de melhorar a escola
e de garantir uma bolsa-escola decente para essas crianças.
Sobre o secretário
da educação, qual o nome que já está
confirmado?
Já está confirmado o secretário João
Luis Homem de Carvalho, uma pessoa que já demonstrou, no
cargo que ocupou no Distrito Federal, capacidade em levar adiante
as suas atividades. Não é um pedagogo, é um
gerente. Os pedagogos eu vou levar todos aqueles que a gente precisa
para junto de nós da área do método. Eu acho
até bom, porque além de ele ser uma espécie
de trator, gerente, administrador, eu acho até bom, porque
não sendo ele próprio um pedagogo, ele não
vai ter preconceito com nenhum dos métodos e não vai
entrar em nenhuma hipótese nas brigas tão comuns entre
as pessoas do ramo.
Qual a posição
do Ministério da Educação sobre a inclusão
da Educação na lista do GATS?
Olhe, é absurdo pensar em mercantilizar a educação
e ponto. É impossível. A educação não
se mercantiliza, como não se mercantiliza religião.
Não há como se deixar que mercantilize a educação.
O senhor
conhece o projeto Avaliar-se desenvolvido pela executiva de comunicação
como opção ao provão?
Não, não conheço, mas estamos abertos receber
e considerar.
Mas vamos
responder a pergunta sobre a educação paga na universidade...
Aí é simples: é avaliar. Se a gente avalia
nessa país Coca-Cola, tem um sistema sanitário de
alimentos. Tem que ter um sistema sanitário de educação
que avalie tudo, que avalie todos os ensinos, inclusive o universitário.
Ninguém é contra que uma pessoa pegue o seu capital
e ponha na universidade. Eu prefiro que ponha numa universidade
do que pôr num bingo. Agora, se é pra pôr na
universidade, tem que ser feita com responsabilidade, com seriedade,
para que os alunos saiam competentes e satisfeitos com o que eles
gastaram.
O ensino
médio e o ensino técnico vão continuar separados?
Não, tão juntos.
Não,
tão separados. O ensino técnico não habilita
para o vestibular...
Ah, sim, sim... não, aí a gente pensa em mudar. Nós
pensamos em mudar de uma maneira que possa habilitar também
e é preciso dar ao ensino profissionalizante a dignidade
do ensino médio.
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