Ilustríssimas
Autoridades.
Caríssimos (as) Associados (as)
da ANPEd.
Com intensa alegria e muita
emoção compareço a esta solenidade em que serei,
junto com valorosos e valiosos companheiros e
companheiras, forjados nas lides e lutas
acadêmico-científicas e, portanto, políticas,
revestida com a honraria de assumir a presidência da
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em
Educação – ANPEd para o biênio 2005-2007, por
escolha livre e soberana de expressivo contingente
dos que fazem esta entidade.
Dizia o poeta que devemos saber viver o sabor do
nosso tempo... Ao me debruçar na redação destas
palavras, quedei-me silenciosa por um bom tempo e
deixei que as lembranças e recordações, tais quais
ondas que beijam as areias da praia, assomassem à
memória, trazendo lances de minha trajetória
acadêmica e política, ao longo de duas décadas, que
reconheço entrelaçada e em boa parte tributária da
construção acadêmico-política do coletivo chamado
ANPEd.
Dou-me a licença (se tivesse o dom, poética!),
neste momento de emoção, de reportar-me ao ano de
1984, quando estudante que era e adentrei, pela
primeira vez, no espaço da ANPEd. Ao fazê-lo,
descobri estar ingressando em um dos mundos
privilegiados da academia, considerando a dura
realidade educacional do país de milhões
analfabetos. Flashes daquele momento ressurgem com
nitidez! Vêm à mente os rostos juvenis, apaixonados
e decididos de acadêmicos, os quais em sua maioria
nunca vira antes, que debatiam, com veemência,
problemas da educação nacional, particularmente da
pesquisa e da pós-graduação. Atentamente, ouvia
serem pronunciados os seus respectivos nomes e
começava a me sentir muito à-vontade: todos aqueles
intelectuais eram velhos conhecidos nas lides do
curso de mestrado.
Naquela manhã de sol de setembro, em uma sala da
Faculdade de Educação da Universidade de Brasília -
universidade sonhada por Darcy Ribeiro -
alternavam-se as vozes, em meio à acalorada
discussão, desses intelectuais engajados na luta
pela redemocratização do país (alguns dentre eles
presentes nesta solenidade!). Fiquei fascinada com
aquele debate e, depois daquela primeira reunião,
vieram outras e tantas outras que, na minha vida,
já totalizam vinte e quatro, às quais sempre me
refiro, revelando aos meus estudantes da
pós-graduação (com orgulho) nunca ter faltado a uma
sequer.
Aos poucos, fui conquistada pela magia do
compromisso com a crescente qualificação da
pós-graduação em educação nas universidades públicas
e vi surgir, a cada reunião anual, novos atores, de
todas as regiões do país, que encontravam na ANPEd o
espaço para o exercício da crítica e da
criatividade.
Vi (e vivi!) a ANPEd como o intelectual coletivo de
sabor gramsciano: espaço aglutinador das diferenças
e dos diferentes, arena de disputas
filosófico-políticas, construtora ou
desmistificadora de propostas de naturezas diversas
que circulam no território educacional. Espaço de
ressonância das questões polêmicas do nosso tempo,
atinentes ao campo das idéias e às práticas da
sociedade brasileira no contexto das relações
globalizadas. E, nesse espaço, não foram poucas as
lutas das quais participei. Sempre por uma boa
causa: a defesa intransigente da democracia e da
educação pública, laica, republicana para todos e
todas!
No início, freqüentavam a ANPEd poucos estudantes da
pós-graduação, tímidos naquele momento, mas,
transcorridos dez ou vinte anos, tornaram-se
exemplos de maturidade intelectual como bem o
demonstram alguns integrantes de nossa Diretoria.
Vi até mesmo personagens desse universo se
transmutarem em estrelas que cintilam mais
brilhantes, em noite de lua cheia, quando escutam,
no silêncio infinito, o eco das nossas vozes as
chamando pelos respectivos nomes: Neidson Rodrigues!
Presente... Maurício Tragtenberg! Presente... Joel
Martins! Presente...
Muita coisa aprendi, ao longo do tempo, na
convivência com esses mestres eméritos: acatando,
questionando, duvidando, contestando, incorporando,
me contrapondo. Mas, refletindo sempre, sempre
querendo saber mais.
Com a ANPEd, todos
nós aprendemos a construir a travessia democrática
que desembocou nas lutas da Constituinte e da Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Que o digam
aqueles que participavam incansavelmente do “corpo
a corpo” no Congresso Nacional, no esforço de
convencer deputados e senadores de que a sociedade
exigia respostas imediatas para os problemas
educacionais. Estivemos presentes nas concorridas
Conferências Brasileiras de Educação, nossas CBEs,
cuja organização tinha, também, o protagonismo e a
pujança da ANPEd, refletidos nas conferências,
palestras e grupos de estudo, despertando e
mobilizando corações e mentes de jovens estudantes
em auditórios e salas lotadas dos campi das
universidades nas quais foram realizadas.
Nas CBE de Goiânia,
acorremos ao Ginásio de Esportes, para ocupar um
lugar e aplaudir entusiasticamente a argumentação
brilhante e contundente de Miriam Limoeiro Cardoso,
numa tarde de debate inesquecível, nos idos de
1980, quando as divergências teóricas e políticas
começavam a demarcar o terreno das esquerdas,
derrubando os consensos construídos na luta contra o
regime autoritário, prenúncio do que viria a se
expressar no campo da política na nascente
democracia brasileira.
Na CBE de Brasília, lotamos o auditório do Palácio
das Artes, para anunciar novos tempos para a
educação brasileira, ovacionando a palavra de
Octávio Elíseo ao relatar que dera entrada, na
Câmara Federal, ao projeto das novas Diretrizes e
Bases da Educação Nacional, com o registro
inicial de Dermeval Saviani.
Com a ANPEd,
participamos ativamente da construção do Plano
Nacional de Educação – PNE, com assento no Fórum
Nacional em Defesa da Escola Pública, do qual
fizemos uma tribuna para influir na formulação das
políticas públicas em prol da educação nacional, nos
contrapondo aos vetos presidenciais, que
subestimavam as demandas educacionais.
Com a ANPEd,
enfrentamos também o debate teórico, epistemológico
e metodológico motivado pela crise paradigmática que
aportou em nossas plagas, traduzida na
diversificação da produção da área das ciências
humanas e sociais. Fomos capazes de resistir aos
acenos daqueles que apregoavam o fim da história e
das ideologias, denunciando permanentemente e com
competência, porque assentada em consistente
produção teórica, as falsas premissas da suposta
vitória do capitalismo, como sistema ideal para a
humanidade. Não nos abatemos: ao contrário, avivamos
a nossa capacidade crítica, quando a onda do
neoliberalismo pretendeu varrer da história o legado
dos clássicos que nos ensinaram a pôr o homem no
centro da produção material. Nesse movimento, a
ANPEd foi uma das primeiras a contrapor-se a essas
idéias e a alertar para os riscos da visão que
queria impor, a todos, o mercado como a única saída.
Pugnamos por
políticas públicas estruturadoras que revelem o
Estado não como mínimo ou máximo, mas como o Estado
que cumpra suas finalidades como garantidor e
regulador de relações sociais justas e igualitárias
em um país com enormes distâncias econômicas, que se
traduzem na escandalosa concentração de renda e se
revelam na vida das populações empobrecidas e
miseráveis, numa sociedade em que a violência
explode no cotidiano.
A ANPEd dá guarida, nos grupos de
pesquisa, às letras do alfabeto da diversidade e do
pluralismo, reiterando a idéia da igualdade, tão
cara, desde os gregos atenienses, passando pela
Revolução Francesa, no sentido que nos fala Santos:
“lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos
discriminem. Lutar pelas diferenças sempre que a
igualdade nos descaracterize”.
Nos últimos tempos, a
ANPEd viu adentrar, em suas reuniões anuais, levas e
levas de jovens estudantes da pós-graduação, que se
espelham em seus mestres para praticar com eles
as questões fundamentais da pesquisa, no
delineamento das problemáticas que os impulsionam na
busca de quadros referenciais teórico-metodológicos
que possam melhor iluminar os caminhos para as
descobertas e invenções que beneficiem a sociedade
como um todo e, particularmente, as camadas
espoliadas da população brasileira.
Pautando sua
trajetória na ética, enfrenta a ANPEd os novos
tempos que mostram o Brasil com o que há de mais
moderno no mundo contemporâneo ao lado de paisagens
que lembram os piores quadros do mundo medieval.
Nesse cenário, enfrenta os desafios do presente e do
futuro sem abrir mão do questionamento permanente do
instituído e dado como verdade imutável. Suas armas:
o ideário humanista e os instrumentais
teórico-analíticos, fruto do esforço intelectual do
coletivo dos pesquisadores que a constituem.
Na atualidade, a
ANPEd se depara com grandes desafios: manter sua
autonomia, sem se fechar no seu mundo interno;
conviver com o príncipe sem subserviência ou
arrogância; criticar as políticas e iniciativas do
poder público, sem preconceitos nem dogmatismos;
defender, nos fóruns próprios, a produção
científica, sem se deixar levar pelas leis do
mercado; ser suficientemente aberta aos novos
avanços decorrentes da pesquisa científica e da
criação humana.
Desafio de manter-se
fiel à tradição dos clássicos; inquieta em busca de
novos sentidos, como os jovens; lúcida na capacidade
de análise e da crítica, como os veneráveis sábios;
com a coragem de intervir no momento necessário, nas
questões prementes e essenciais da educação
nacional.
Na construção
permanente dessa ANPEd que, ao longo dos seus 28
anos de existência, construiu e consolidou
trajetória de destacada prática acadêmica e de
corajosa luta política, alguns têm a honra e o
encargo de assumir, periodicamente, o leme deste
barco que singra mares (às vezes calmos, outras
vezes com ondas altas), respaldados pela corrente
marítima do grande coletivo que se espalha nos
programas da pós-graduação e nas instituições de
pesquisa deste país-continente.
Neste exato momento,
somos o grupo que assume este leme, com a
responsabilidade histórica de singrar os mares com
coragem e coerência, observando os pontos-chave do
mapa que se traduziu em nossa carta-programa, cujo
ponto de maior expressão é o de contribuir com a
entidade no fortalecimento da formação pós-graduada
em educação, na promoção do profícuo debate entre
pesquisadores e no firme apoio aos programas de
pós-graduação.
Dentre os inúmeros
desafios, a Diretoria que hoje assume a ANPEd
escolheu alguns para serem enfrentados, buscando
conferir centralidade aos grandes temas da educação
nacional, de modo a intervir de forma mais incisiva
(crítica e propositiva) na formulação das políticas
públicas que incidem no campo da educação. Assim,
neste momento, reafirma os compromissos já
manifestos de atuar no sentido de contribuir para o
fortalecimento da pós-graduação e da pesquisa em
educação, com o ensino de qualidade para todos e com
uma escola comprometida com os interesses da maioria
da população, que faça, da passagem por ela,
processo revigorado de cidadania e prática social.
Nessa perspectiva,
compromete-se a apoiar iniciativas regionais,
contemplando as especificidades locais, incentivando
o fortalecimento dos programas de pós-graduação em
educação e a elevação dos padrões da produção
acadêmica, sem, no entanto, deixar de levar em conta
que o regional e o local fazem parte de uma
totalidade nacional e internacional. Com igual
entusiasmo, buscará ampliar a participação da ANPEd
nos debates referentes aos contextos
político-econômico e educacional nacional e
internacional, bem como nos processos decisórios
sobre políticas públicas em educação, nas diferentes
instâncias e órgãos governamentais. Nesta direção,
compromete-se a debater e subsidiar a construção de
propostas de políticas educacionais e sua avaliação,
especialmente as voltadas para a educação pública e
para o seu financiamento, fundamentando-se na
produção científico-tecnológica da área e no
compromisso com a democratização substantiva da
sociedade. Buscará ampliar os canais de participação
na definição das políticas de ciência e tecnologia,
especialmente as comprometidas com o equacionamento
e a solução dos problemas que afetam a maioria da
população brasileira. Compromete-se, também, a
ampliar a articulação e o intercâmbio com as
sociedades e entidades científicas de outras áreas
do conhecimento, visando a fortalecer a
pós-graduação e a pesquisa em educação no
enfrentamento das questões comuns à comunidade
acadêmica brasileira, especialmente aquelas
relacionadas às políticas educacionais e de ciência
e tecnologia. Considera relevante fortalecer os
canais de intercâmbio e de articulação com a
comunidade científica nacional e internacional, e
com os movimentos sociais, tendo em vista o debate e
a construção de alternativas ao modelo de
globalização hoje hegemônico, com profundos reflexos
negativos sobre as camadas majoritárias da população
do país.
À Diretoria que nos
entrega o leme da entidade, representada na pessoa
da professora Betania Leite Ramalho, somente
palavras de reconhecimento pelo trabalho realizado
nos últimos dois anos, pelo cumprimento das metas
estabelecidas, pela condução democrática da entidade
e, particularmente, pela postura acadêmica na
direção do processo eleitoral e no período de
transição da gestão.
Aos amigos e
companheiros da Diretoria que hoje, nesta cerimônia,
assumem comigo a direção da ANPEd, algumas
palavras: que sejamos, nas pequenas e grandes
tarefas da entidade, dignos da confiança de que
somos depositários; dedicados na execução das
tarefas que vêm pela frente; humildes na aceitação
da crítica justa; corajosos na defesa dos princípios
da entidade quando os embates de idéias assim o
exigirem; abertos à incorporação de novas análises,
teses e propostas no plano educacional; visionários
de um mundo mais humano e de uma sociedade justa e
democrática. Em síntese: que tenhamos a capacidade,
coragem e lucidez de, juntos com todos os que fazem
a entidade, lutar para tornar cada vez mais
brilhante o nome da ANPEd no cenário da educação
nacional e internacional, contribuindo, desse modo,
para ampliar a visibilidade da sua contribuição
científica e política no campo educacional,
inspirada nos ideais e compromissos com a
democracia.
Aos colegas da ANPEd,
integrantes dos Grupos de Trabalho, do Fórum dos
Programas de Pós-Graduação, do Comitê Científico, ao
Conselho Fiscal, um convite: contribuam com suas
críticas, sugestões e propostas com esta direção,
para que, de forma coletiva e transparente, possamos
todos e todas reforçar o caráter acadêmico e a
postura propositiva da Entidade.
Por fim, ao trabalho,
companheiros e companheiras, devolvendo, sob a forma
da nossa produção científica e de nossa postura em
defesa da coisa pública, o investimento que o país
fez e faz na formação de gerações de intelectuais.
Concluo, convidando a
todos a comemorar o processo democrático que se
efetiva mais uma vez na entidade. Como disse nosso
grande presidente Neidson Rodrigues: “A comemoração
exige que se reúna. Comemorar é re-memorar e
celebrar juntos a história que será contada, e que
em cada re-memoração é re-contada para que fique
para sempre gravada na memória dos que participam da
festa e da história”
. Obrigada.
SANTOS, Boaventura de Souza. A construção
multicultural da igualdade e da diferença.
Congresso Brasileiro de Sociologia, Rio de
Janeiro: Instituto de Filosofia e Ciências
Sociais da UFRJ, 4 a 6 de setembro de 1995
(Conferência)
RODRIGUES, Neidson. Elogio à
educação. São Paulo: Cortez, 1999, p.27.